28 de novembro de 2008
Para acompanhar o caso BPN.
http://pauloquerido.net/caso-bpn/
27 de novembro de 2008
Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América IX. Por Noam Chomsky.
Durante muitos anos, a repressão, a tortura e o assassinato foram praticados em El Salvador por
ditadores instalados e sustentados pelo nosso governo (E.U.A.), um assunto que não suscitou qualquer interesse na opinião pública americana. Para além disso, a história nunca foi realmente contada. No final da década de 1970, entretanto, o governo norte-americano começou a preocupar-se com dois factos. Um era o de que Somoza, o ditador da Nicarágua, estava a perder o controle do país e os Estados Unidos estavam a perder a principal base para os seus exercícios de força na região. Um segundo perigo era talvez o mais ameaçador. Em El Salvador, nos anos de 1970, houve um crescimento das chamadas "organizações populares" - associações camponesas, cooperativas, sindicatos e movimentos eclesiais de base - que se reuniam em torno de grupos de auto- ajuda, etc. Essas movimentações aumentaram a ameaça à democracia e, em fevereiro de 1980, o arcebispo de El Salvador, Don Oscar Romero, enviou uma carta ao presidente Carter em que implorava o não envio de ajuda militar para a junta que governava o país. Ele dizia que tal ajuda seria usada para "estimular a injustiça e a repressão contra organizações populares" que lutavam "pelo respeito dos seus direitos humanos mais elementares" (é desnecessário dizer que isso dificilmente seria notícia em Washington). Poucas semanas depois, o arcebispo Romero foi assassinado enquanto celebrava uma missa. O neonazista Roberto D'Aubuisson foi considerado totalmente responsável pelo assassinato (entre outras incontáveis atrocidades).
D'Aubuisson foi "líder vitalício" do Arena, partido que ainda governa El Salvador; os membros
desse partido, como o ex-presidente Alfredo Cristiani, tinham de fazer um juramento de sangue de lealdade para com ele.
Dez anos depois, milhares de camponeses e pobres da região urbana participaram numa missa
comemorativa, juntamente com inúmeros bispos estrangeiros, mas os Estados Unidos foram
notados pela sua ausência. A Igreja salvadorenha propôs formalmente a canonização de Romero.
Tudo isso se passou com raras referências no país que subvencionou e treinou os assassinos de Dom Romero. O "The New York Times", o "jornal testemunha", não publicou nenhum editorial sobre o assassinato quando ele ocorreu, nem nos anos seguintes, e também nenhum editorial ou reportagem foi feita sobre a comemoração. Em 7 de março de 1980, duas semanas antes do assassinato, foi instituído um estado de sítio em El Salvador, e a guerra contra a população começou com força total (e com o contínuo apoio e envolvimento dos Estados Unidos). O primeiro e principal ataque foi o grande massacre de Rio Sumpul, uma operação militar coordenada pelos exércitos hondurenhos e salvadorenhos, na qual pelo menos seiscentas pessoas foram massacradas. Crianças foram cortadas em pedaços com facões. mulheres foram torturadas e afogadas. Dias depois, partes dos corpos ainda eram encontradas no rio.Havia observadores da Igreja, de modo que as informações saíam imediatamente, mas os principais meios de comunicação não acharam nada que valesse uma reportagem. Os camponeses foram as principais vítimas dessa guerra, ao lado de líderes sindicais, estudantes, padres ou qualquer outro suspeito de trabalhar pelos interesses do povo. No último ano do governo Carter, 1980, o número de mortes chegou a algo em torno de dez mil, aumentando para cerca de
13.000 já sob o comando da era Reagan.
Em outubro de 1980, o novo arcebispo condenou "a guerra de extermínio e genocídio contra a
indefesa população civil", desencadeada pelas forças de segurança. Dois meses depois, estas foram aclamadas pelo seu "heróico serviço ao lado do povo, contra a subversão" pelo "moderado" favorito dos Estados Unidos, José Napoleón Duarte, ao ser nomeado presidente civil da junta.
O papel do "moderado" Duarte era manter a fachada para os dirigentes militares e garantir-lhes a contínua chegada de fundos norte-americanos, mesmo depois de as forças armadas terem violentado e assassinado quatro freiras americanas, o que provocou protestos nos E.U.A.. Trucidar salvadorenhos é uma coisa, porém violentar e matar freiras americanas é definitivamente um erro de relações públicas. Os meios de comunicação de massa evitaram e abafaram a história, seguindo a liderança do governo Carter e a sua comissão de investigação.
Os recém-chegados abutres de Reagan foram mais longe, tratando de justificar a atrocidade, nomeadamente o ministro de Estado Alexander Haig e a embaixatriz das Nações Unidas, Jeane Kirkpatrick. Mas ainda foi considerado se valia a pena ter um julgamento-farsa, enquanto anos mais tarde desculpavam a junta assassina - e naturalmente o seu financiador.
Os jornais independentes de El Salvador, que poderiam ter informado dessas atrocidades, foram
destruídos. Embora eles fossem abertamente a favor das empresas, eram ainda indisciplinados
demais para o gosto dos militares. O problema foi resolvido entre 1980 e 1981, quando o editor de um desses jornais foi morto pelas forças de segurança e outro fugiu para o exílio. Como de
costume, esses acontecimentos foram considerados muito insignificantes para merecer mais que
algumas palavras nos jornais norte-americanos. Em novembro de 1989, seis padres jesuítas, cozinheira e a filha dela foram assassinados pelo Exército. Naquela mesma semana, pelo menos mais 28 civis salvadorenhos também foram mortos, inclusive a dirigente do principal sindicato, a líder de uma organização universitária, nove membros de uma cooperativa agrária indígena e dez estudantes universitários. As agências de notícias transmitiram uma reportagem por intermédio do correspondente da A.P. Douglas Grant Mine, relatando como os soldados entraram num bairro operário, próximo da capital de San Salvador, capturaram seis homens e uma criança de 14 anos, por medida de segurança. Em seguida, colocaram todos contra a parede fuzilaram-nos. "Eles não eram padres nem defensores dos direitos humanos", escreveu Mine, mas, mesmo assim, essas mortes passaram em grande parte despercebidas, assim como a reportagem de Mine. Os jesuítas foram assassinados pelo Batalhão Atlacatl, uma unidade de elite criada, treinada e equipada pelos Estados Unidos. A unidade foi formada em março de 1981, quando 15 especialistas em contra-insurgência, da Escola de Forças Especiais do Exército norte-americano, foram enviados para El Salvador. Desde o início, o Batalhão esteve envolvido no extermínio em massa. Um formador militar norte-americano descreveu os seus soldados como "particularmente ferozes... Nós tivémos sempre dificuldade em conseguir que eles capturassem os prisioneiros em vez das suas orelhas". Em dezembro de 1981, o Batalhão participou numa operação na qual foram mortos mais de mil civis, numa verdadeira orgia de estupros, incêndios e assassinatos. Mais tarde, o Batalhão esteve ainda envolvido em bombardeios de cidades, matança de centenas de civis por fuzilamento, afogamento e outros métodos bárbaros. A grande maioria das vítimas eram mulheres, crianças e velhos. O Batalhão Atlacatl estava a ser treinado pelas Forças Especiais norte-americanas, pouco antes de matar os jesuítas. Esta tem sido a norma em toda a existência do Batalhão. Alguns dos piores ataques ocorreram justamente quando o Batalhão recém-chegara dos E.U.A..
brincavam com os bocados para se divertirem.
Segundo o reverendo Santiago, cenas assim macabras não são raras. “As pessoas não são só assassinadas pelos esquadrões da morte em El Salvador. Elas são decapitadas e as suas cabeças são postas em estacas e exibidas como parte da paisagem. Os homens não são só estripados pela Polícia do Tesouro Salvadorenho; os seus genitais são decepados e colocados dentro da boca da vítima. As mulheres salvadorenhas não são só violadas pela Guarda Nacional, os seus
ventres são cortados e usados para cobrir o rosto. Não basta matar crianças; elas são arrastadas
sobre arames farpados até a carne se soltar dos ossos, enquanto os pais são obrigados a assistir à cena.” O padre Santiago continua a afirmar que violências dessa natureza aumentaram bastante desde que a Igreja começou a formar associações camponesas e grupos de auto-ajuda na tentativa de organizar a população pobre.
De uma forma geral, o nosso projeto em El Salvador tem sido bem-sucedido. As organizações populares foram dizimadas, como havia previsto o arcebispo Romero. Dezenas de milhares de pessoas foram trucidadas e mais de um milhão de salvadorenhos tornaram-se refugiados. Este foi um dos mais sórdidos episódios da história americana - e tem havido muita concorrência.
20 de novembro de 2008
A história das coisas. Até uma criança compreende...
Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América VIII. Por Noam Chomsky.
Como os preceitos desenvolvidos por George Kennan foram seguidos? Como deixámos inteiramente de lado a preocupação com os "objectivos vagos e irreais tais como os direitos humanos, a elevação do padrão de vida e a democratização?" Já expus o nosso "compromisso com a democracia”, mas e quanto às outras duas questões? Vamos focalizar a América Latina, e começar olhando para os direitos humanos. Um estudo feito por Lars Schoultz, um destacado académico especialista em direitos humanos da América Latina, mostra que "a ajuda norte-americana tende a ser desproporcionalmente distribuída para os governos "latino-americanos que torturam os seus cidadãos”. Não tem nada a ver com quanto o país precisa de ajuda, somente com a sua disposição em servir à riqueza e ao privilégio. Estudos mais profundos, feitos pelo economista Edward Herman, revelam uma estreita correlação em todo o mundo entre a tortura e a ajuda norte-americana e fornecem uma explicação: ambas se correlacionam com a melhoria das condições de operações das empresas. Em comparação com este guia de princípios morais, assuntos tais como tortura e carnificina caem na insignificância. E a elevação do padrão de vida? Isso foi supostamente tratado na Aliança para o Progresso pelo presidente Kennedy, mas o tipo de desenvolvimento imposto foi direcionado, na sua maior parte, para as necessidades dos investidores norte-americanos. A Aliança fortificou e ampliou o sistema vigente, pelo qual os latino-americanos produzem colheitas para exportação e reduzem as colheitas de subsistência, como milho e feijão, cultivadas para o consumo local. Com o programa da Aliança, por exemplo, a produção de carne aumentou, enquanto o consumo interno de carne diminuiu. Esse modelo agroexportativo de desenvolvimento, em geral, produz um "milagre económico" onde
o PNB - Produto Nacional Bruto - sobe, enquanto a maioria da população morre de fome. Quando
se segue tal orientação política, a oposição popular inevitavelmente aumenta, o que, então, se
reprime com terror e tortura. O uso do terror é profundamente arraigado no nosso carácter. Nos idos de 1818, John Quincy Adams elogiou a "eficácia salutar" do terror em se tratando das "hordas misturadas de índios e negros sem lei". Ele escreveu isso para justificar a violência de Andrew Jackson, na Flórida, que praticamente exterminou a população nativa e deixou a província espanhola sob o controle americano, impressionando muito Thomas Jefferson e outros mais com a sua sabedoria.
O primeiro passo é o uso da polícia; ela é decisiva porque sabe detectar logo o descontentamento e eliminá-lo antes da "grande cirurgia” (como é chamada nos documentos de planeamento) ser
necessária. Se a "grande cirurgia" for necessária, nós contamos com o Exército. Quando já
não conseguimos controlar o Exército dos países da América Latina - particularmente a região do
Caribe e da América Central - é tempo de derrubar o governo! Os países que tentaram inverter as regras, como a Guatemala, sob os governos capitalistas democráticos de Arévalo e Arbenz, ou a República Dominicana, sob o regime capitalista democrático de Bosch, tornaram-se alvo da hostilidade e da violência dos Estados Unidos. O segundo passo é utilizar os militares. Os EUA sempre tentaram estabelecer relações estreitas com os militares de países estrangeiros, porque essa é uma das maneiras de derrubar um governo que saiu fora do controle. Assim foram assentadas as bases para os golpes militares no Chile, em 1973, e na Indonésia, em 1965. Antes desses golpes, éramos bastante hostis aos governos do Chile e da Indonésia, mas continuávamos a enviar armas. Mantenha boas relações com os oficiais certos e eles derrubarão o
governo para si. O mesmo raciocínio motivou o fluxo de armas dos Estados Unidos para o Irão
via Israel, desde o início de 1980. De acordo com altos oficiais israelitas envolvidos, esses factos
eram conhecidos já em 1982, muito antes de haver reféns. Durante o governo Kennedy, a missão dos militares latino-americanos dominados pelos EUA mudou de "defesa hemisférica" para "segurança interna" (que basicamente significa guerra contra a própria população). Essa decisão fatídica implicou a "directa cumplicidade dos Estados Unidos" com "os métodos dos esquadrões de extermínio de Heinrich Himler", no julgamento retrospectivo de Charles Maechling, que foi encarregado do planeamento de contra-insurgência, de 1961 a 1966. O governo Kennedy preparou o caminho para o golpe militar no Brasil em 1964, ajudando a derrubar a democracia brasileira, que se estava a tornar independente demais. Enquanto os Estados Unidos davam entusiasmado apoio ao golpe, os chefes militares instituíam um estado de segurança nacional de estilo neonazista, com repressão, tortura, etc. Isso provocou uma explosão de acontecimentos semelhantes na Argentina, no Chile e em todo o hemisfério, desde os meados de 1960 até 1980 - um período extremamente sangrento.
presidentes norte-americanos desde a Segunda Guerra Mundial. Eles todos têm sido verdadeiros
criminosos de guerra ou estiveram envolvidos em crimes de guerra. Os militares agem de maneira típica para criar um desastre económico, seguindo frequentemente receitas de conselheiros norte-americanos, e depois decidem entregar os problemas para os civis
administrarem. Um controle militar aberto não é mais necessário, pois já existem novas técnicas
disponíveis, por exemplo, o controle exercido pelo Fundo Monetário Internacional (o qual, assim
como o Banco Mundial, empresta fundos às nações do Terceiro Mundo, a maior parte fornecida em larga escala pelas potências industriais). Em retribuição pelos seus empréstimos, o FMI impõe a "liberalização": uma economia aberta à penetração e ao controle estrangeiros, além de profundos cortes nos serviços públicos em geral para a maior parte da população, etc. Essas medidas colocam o poder decididamente nas mãos das classes dominantes e de investidores estrangeiros (“estabilidade"), além de reforçar as duas clássicas camadas sociais do Terceiro Mundo - a dos super-ricos (mais a classe dos profissionais bem sucedidos que a serve) e a da enorme massa de miseráveis e sofredores.
A dívida e o caos económico deixados pelos militares garantem, de forma geral, que as regras do
FMI serão obedecidas - a menos que as forças populares queiram entrar na arena política. Neste
caso, os militares talvez tenham de reinstalar a "estabilidade". O Brasil é um exemplo esclarecedor desse caso. Sendo um país muito bem dotado de recursos naturais, além de ter um alto desenvolvimento industrial, deveria ser uma das nações mais ricas do mundo. Mas graças, em grande parte, ao golpe de 1964 e ao tão aclamado "milagre económico" que se seguiu ao golpe (sem falar nas torturas, assassinatos e outros instrumentos de "controle da população"), a situação de muitos brasileiros é, agora, provavelmente parecida com a da Etiópia - e bem pior que a da Europa Oriental, por exemplo. O Ministério da Educação informa que mais de um terço do orçamento educacional vai para a alimentação escolar, porque a maioria dos estudantes da rede pública ou come na escola ou não come. De acordo com a revista South (uma revista de reportagens sobre empresas do Terceiro Mundo), o Brasil tem uma taxa de mortalidade infantil maior que a do Sri Lanka. Um terço da população vive abaixo da linha da miséria e "sete milhões de crianças abandonadas pedem esmola, roubam e cheiram cola nas ruas. E para milhares delas a casa é um barraco na favela... ou cada vez mais um pedaço de terra de baixo da ponte”. Assim é o Brasil, um dos países de natureza mais rica do planeta. A situação é semelhante em toda a América Latina. Apenas na América Central o número de pessoas assassinadas pelas forças apoiadas pelos EUA, desde o final de 1970, gira em torno de duzentos mil, ao mesmo tempo que os movimentos populares, que visavam obter a democracia e a reforma social, foram dizimados. Essas façanhas qualificam os Estados Unidos como fonte de “inspiração para o triunfo da democracia no nosso tempo", nas admiráveis palavras da liberal Nova República. Tom Wolfe conta-nos que a década de 1980 foi "um dos grandes momentos de ouro da humanidade, jamais vivido". Como diria Stalin: "estamos deslumbrados com tanto sucesso”...
Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América VII. Por Noam Chomsky.
Desde o começo da década de 1970, o mundo tem tomado um rumo em direcção ao chamado
tripolarismo ou trilateralismo, ou seja, os três maiores blocos económicos que competem entre si. O primeiro bloco é baseado no yen, com o Japão no centro e as antigas colónias japonesas na
periferia. Retrocedendo aos anos 1930 e 1940, o Japão apelidou essa realidade como Grande Esfera da Co-Prosperidade da Ásia Oriental. O conflito com os Estados Unidos nasceu da tentativa de o Japão exercer ali o mesmo tipo de controle que as potências ocidentais exerciam nas suas respectivas esferas. Mas após a guerra nós (EUA) reconstruímos a região para eles. E não tivemos, então, nenhum problema em que oJapão a explorasse - só que agora o Japão teria de explorá-la sob o nosso abrangente poder. Há muitas tolices escritas acerca de como o Japão, de facto, se tornou um grande competidor, que provam que somos honrados e fortalecemos os nossos inimigos. As verdadeiras opções políticas, entretanto, eram mais estreitas. Uma era restaurar o império japonês, mas agora sob o nosso total controle (essa foi a política seguida). A outra opção era ficar fora da região e permitir ao Japão e ao resto da Ásia seguirem caminhos independentes, excluídos da "Grande Área" de controle norte-americano. Isso era impensável. Além disso, depois da Segunda Guerra, o Japão não era considerado como possível concorrente, mesmo num futuro remoto. Especulou-se talvez, a certa altura dos acontecimentos, que o Japão seria capaz de produzir algumas bugigangas, nada mais que isso. Havia uma forte componente de racismo nessa convicção. O Japão recuperou-se em grande parte por causa da Guerra da Coreia e depois com a Guerra do Vietname, que estimulou a produção japonesa e trouxe enormes lucros ao Japão.
Alguns estrategas, logo no início do pós-guerra, foram mais perspicazes, entre eles George
Kennan. Ele propôs que os EUA estimulassem o Japão a industrializar-se, mas com um limite: os EUA controlariam a importação do petróleo japonês. Kennan disse que isso nos daria "poder de veto", se acaso o Japão saísse fora da linha. Os EUA seguiram esse conselho, mantendo o controle do abastecimento e das refinarias de petróleo. Ainda no início da década de 1970, o Japão controlava somente cerca de 10% do seu próprio abastecimento de petróleo. Esse é um dos principais motivos pelo qual os EUA se têm interessado tanto pelo petróleo do Médio Oriente. Não precisávamos do petróleo para nós mesmos; a América do Norte liderava, até 1968, a produção mundial de petróleo. Entretanto, queremos realmente manter as mãos na alavanca
do poder mundial, e assegurar-nos que os lucros fluam principalmente para os Estados Unidos e
para a Inglaterra. É por isso que mantemos bases militares nas Filipinas. Elas são parte de um
sistema global de intervenção apontada para o Oriente Médio, para garantir que as forças locais não sucumbam ao "ultranacionalismo".
O segundo maior bloco competitivo está baseado na Europa e é dominado pela Alemanha, que está dando um grande passo em direção à consolidação do Mercado Comum Europeu. A Europa tem uma economia mais forte que a dos Estados Unidos, além de uma população maior e mais bem instruída. Se um dia ela agir conjuntamente e se tornar um poder integrado, os EUA poderão tornar-se uma potência de segunda classe. Isso é provável com uma Europa dirigida pela Alemanha, tomando a liderança na restauração da Europa Oriental, no seu tradicional papel de colónia económica, basicamente em parte do Terceiro Mundo.
O terceiro bloco é dominado pelos Estados Unidos e baseado no dólar. Foi recentemente ampliado com a inclusão do Canadá, maior parceiro comercial, e logo incluirá o México e outras partes do hemisfério, por meio do "tratado de livre comércio", projectado, em primeiro lugar, para os interesses dos investidores norte-americanos e seus associados. Nós sempre assumimos que a América Latina nos pertence por direito. Como Henry Stimson (secretário de Guerra, sob FDR e Taft, e secretário de Estado de Hoover) uma vez declarou "a nossa regiãozinha, logo ali, que nunca incomodou ninguém". A consolidação do bloco, baseado no dólar, significa que o esforço para frustrar o desenvolvimento independente na América Central e no Caribe vai continuar.
A menos que você entenda as nossas lutas contra os nossos rivais industriais e do Terceiro Mundo, a política externa norte-americana parece ser uma série de erros ocasionais, inconsistentes e confusos. Na verdade, os nossos líderes têm sido mais que bem-sucedidos, dentro dos limites das suas possibilidades, nas tarefas a eles atribuídas.
19 de novembro de 2008
Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América VI. Por Noam Chomsky.
Granada tem cem mil habitantes, que produzem noz-moscada, e mal pode ser encontrada no mapa. Mas quando Granada iniciou uma incipiente revolução social, Washington imediatamente entrou em acção para destruir a ameaça. Desde a Revolução Bolchevique de 1917 até à queda dos governos comunistas do Leste Europeu, no final da década de 1980, era possível justificar qualquer ataque norte-americano como defesa contra a ameaça soviética. Então, quando os Estados Unidos invadiram Granada, em 1983, o presidente do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas explicou que, na eventualidade de um ataque soviético na Europa Ocidental, uma Granada hostil poderia proibir o abastecimento de petróleo no Caribe para a Europa Ocidental e, então, não poderíamos defender os nossos aliados sitiados. Agora isso parece cómico, mas esse tipo de estória ajuda a mobilizar a opinião pública para apoiar a agressão, o terror e a subversão.
O ataque contra a Nicarágua foi justificado sob a alegação de que, se não os contivéssemos lá,
"eles" poderiam ultrapassar a fronteira de Harlingen, no Texas - apenas a dois dias de carro. Para as pessoas mais instruídas, havia outras desculpas mais sofisticadas e certamente mais plausíveis. A Nicarágua é tão importante para o empresariado americano que ela poderia desaparecer do mapa que ninguém perceberia. A mesma coisa com El Salvador. Mas ambos têm sido submetidos a assaltos homicidas pelos Estados Unidos, com o custo de centenas de milhares de vidas e muitos bilhões de dólares. Há uma razão para isso, o país mais fraco e mais pobre é mais perigoso como exemplo. Se uma nação pequena e pobre como Granada pode ser bem sucedida, alcançando um melhor nível de vida para seu povo, em outro lugar que tenha mais
recursos as pessoas poderão perguntar: "E nós, por que não?"
Esse foi exatamente o caso da Indochina, que é bastante extensa e tem importantíssimos recursos. Embora Eisenhower e seus conselheiros fizessem muito alarde do arroz, do estanho e da borracha, o verdadeiro medo era que, se o povo da Indochina conseguisse independência e justiça, o povo da Tailândia tenderia a imitá-la, e se isso funcionasse, tentaria a Malásia, e em pouco tempo a Indonésia adoptaria a via independente. Até lá, uma significativa parte da "Grande Área" já teria sido perdida. Se se quer um sistema global subordinado às necessidades dos investidores norte-americanos, não se pode deixar que partes do sistema se percam. É notável a clareza com que isso é declarado nos arquivos oficiais - às vezes, até nos arquivos públicos.
Por outras palavras, o que os EUA querem é "estabilidade", quer dizer, segurança para "as classes dominantes e liberdade para as empresas estrangeiras". Se isso pode ser obtido com métodos democráticos formais, tudo bem. Se não, a ameaça à "estabilidade" causada pelo bom exemplo tem de ser destruída, antes que o vírus infecte os outros. É por isso que, mesmo que a mais ínfima partícula cause tal perigo, ela tem de ser esmagada.
Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América V. Por Noam Chomsky.
Com um documento de alto nível atrás do outro, os estrategas norte-americanos expunham a
visão de que a principal ameaça à nova ordem mundial, liderada pelos EUA, era o nacionalismo do Terceiro Mundo - algumas vezes chamado de ultranacionalismo: os "regimes nacionalistas" que atendem às "exigências populares de elevação imediata dos baixos padrões de vida das massas" e produção de bens que satisfaçam as suas necessidades básicas. As metas básicas dos estrategas, insistentemente repetidas, eram evitar que os ultranacionalistas tomassem o poder, e se por um golpe de sorte eles chegassem ao poder, retirá-los e instalar ali governos que favorecessem os investimentos privados do capital interno e externo, a produção para
exportação e o direito de remessa de lucros para fora do país. Essas metas nunca foram contestadas nos documentos secretos. Para um estratega da política norte-americana, essas metas praticamente fazem parte do ar que ele respira.
A oposição à democracia e às reformas sociais nunca é popular no país vítima. Não se consegue
estimular muito as pessoas que aí vivem com isso, excepto um pequeno grupo ligado às empresas norte-americanas, que naturalmente vai lucrar com isso. Os EUA esperam contar com a força e fazer alianças com os militares - "o grupo menos antiamericano da América Latina", como disseram os estrategas de Kennedy -, de modo que se pode confiar neles para esmagar qualquer grupo popular local que saia do controle. Os EUA estão dispostos a tolerar reformas sociais como na Costa Rica, por exemplo, somente quando são eliminados os direitos dos trabalhadores e preservadas as condições para os investimentos estrangeiros. Devido ao governo da Costa Rica ter sempre respeitado esses dois princípios imperativos é que o deixaram seguir com as suas reformas.
Outro problema que é repetidamente apontado nesses documentos secretos é o excessivo
liberalismo dos países do Terceiro Mundo. Esse é particularmente o problema da América Latina,
onde os governos não estão suficientemente comprometidos com o controle de ideias, restrições de viagens e onde o sistema judicial é tão deficiente que exige prova para acusação de crimes.
Essa foi uma das constantes queixas durante o período Kennedy (depois dele, os arquivos não foram mais colocados à disposição do público). Os liberais de Kennedy eram inflexíveis sobre a
necessidade de vencer os excessos democráticos que permitem a "subversão", que para eles, claro, significava pessoas com pensamento errado. Os EUA não primam, no entanto, pela falta de compaixão pelos pobres. Em meados da década de 1950, por exemplo, o nosso embaixador na Costa Rica recomendou que a United Fruit Company, que basicamente governava a Costa Rica, apresentasse "uma ligeira e superficial encenação de interesse humano em relação aos trabalhadores, pois isso poderia ter um grande efeito psicológico". O secretário de Estado John Foster Dulles concordou, dizendo ao presidente Eisenhower que, para manter as massas da América Latina na linha, "há que adulá-las um pouco, para fazê-las pensar que você gosta delas" .
Exposto tudo isso, é fácil entender a política dos EUA para o Terceiro Mundo. Somos radicalmente opostos à democracia se os seus resultados não podem ser controlados. O problema com as democracias verdadeiras é que elas podem fazer os seus governantes caírem na heresia de responderem às necessidades da sua própria população, em vez das dos investidores norte-americanos.
Um estudo do sistema interamericano, publicado pelo Instituto Real de Assuntos Internacionais, em Londres, concluiu que, enquanto os EUA falsamente louvam a democracia, o seu verdadeiro compromisso é com a "empresa capitalista privada". Quando os direitos dos investidores são
ameaçados, a democracia tem de desaparecer; se esses direitos são salvaguardados assassinos e
torturadores são bem-vindos. Governos parlamentaristas foram derrubados com o apoio dos EUA e, algumas vezes, com intervenção directa. No Irão, em 1953; na Guatemala, em 1954 (e em 1963, quando Kennedy apoiou o golpe militar para evitar a ameaça do retorno à democracia); na República Dominicana, em 1963 e 1965; no Brasil, em 1964; no Chile, em 1973, e frequentemente em outros lugares. A nossa política em geral tem sido a mesma, tanto em El Salvador como em outras partes do mundo. Os métodos não são lá muito agradáveis. O que as forças contra-insurgentes americanas fizeram na Nicarágua, ou o que os nossos substitutos terroristas fazem em El Salvador ou na Guatemala, não é apenas matança comum, o principal componente é a tortura brutal e sádica, batendo bebés contra pedras, pendurando mulheres pelos pés, com os seios cortados, a pele do rosto escalpelada, para sangrarem até a morte, ou cortando a cabeça de pessoas, colocando-as em estacas. A questão é esmagar o nacionalismo independente e as forças populares que possam construir uma democracia genuína.
Petição para a demissão da Sinistra Ministra.

Caros colegas:
Como sabem, de nada adianta mudar de ministros se não mudar a política da respectiva área.
No entanto, até por uma questão de honra (lembram-se dos "professorzecos"?) e pelo facto de ser impossível ter pior, é bom que seja desta!
Para assinar a petição para a demissão da ministra, aceder aqui:
http://www.petitiononline.com/demissao/
Já vai em 10.656 assinaturas...
Já vai em 12.123 assinaturas (actualizado em 20/11/08)...
A coisa parece que abrandou... 14.556 assinaturas (actualizado em 8/12/08)
23.262 assinaturas (actualizado em 26/1/2009). Mas nunca é tarde...
18 de novembro de 2008
Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América IV. Por Noam Chomsky.
A Itália tinha sido uma das principais áreas de subversão da CIA - Central de Inteligência Americana - desde que a agência foi fundada. A CIA estava preocupada que os comunistas ganhassem o poder nas decisivas eleições italianas de 1948. Muitas técnicas foram utilizadas, inclusive a restauração da polícia fascista, que destruiu sindicatos e escondeu alimentos. Mas, ainda ssim, não estava claro que o Partido Comunista seria derrotado. O primeiro memorando do Conselho de Segurança Nacional (CSNI-1948) especificou uma série de acções que os EUA realizariam se acaso os comunistas vencessem as eleições. Uma das respostas planeadas seria a intervenção armada, com ajuda militar, em operações secretas na Itália. Algumas pessoas, especialmente George Kennan, propuseram acção militar antes das eleições. Ele não queria riscos, mas outros convenceram-no de que poderiam ganhar por meio da subversão, o que se concretizou realmente.
No Japão, o governo de Washington iniciou, em 1947, o chamado "caminho inverso", que reverteu os primeiros passos em direção à democratização empreendida pela administração militar do general MacArthur. O "caminho inverso" reprimiu os sindicatos e outras forças democráticas e colocou o país firmemente nas mãos dos empresários, que haviam apoiado o fascismo japonês - um sistema misto de poder estatal e privado que dura até hoje.
Quando as forças norte-americanas entraram na Coreia, em 1945, dissolveram o governo popular local, composto basicamente de antifascistas, que resistiram aos japoneses. Os EUA inauguraram aí uma repressão brutal, usando a polícia fascista japonesa e coreanos que haviam colaborado com os japoneses durante a ocupação. Cerca de cem mil pessoas foram assassinadas na Coréia do Sul antes daquilo a que chamamos Guerra da Coreia. Inclusive, foram mortas entre trinta e quarenta mil pessoas durante a repressão a uma revolta camponesa, na pequena região da Ilha de Cheju.
O golpe fascista na Colômbia, inspirado pela Espanha de Franco, trouxe pouco protesto do governo norte-americano. A mesma coisa ocorreu com o golpe militar na Venezuela e com a restauração de um admirador do fascismo no Panamá. Mas o primeiro governo democrático da história da Guatemala, inspirado no New Deal de Roosevelt, provocou um amargo antagonismo norte americano. Em 1954, a CIA maquinou um golpe que transformou a Guatemala num inferno na terra. E, desde então, mantém-se assim, com intervenção e apoio regular dos EUA, especialmente durante os governos Kennedy e Johnson. Outro aspecto da repressão à resistência antifascista foi o recrutamento de criminosos de guerra como Klaus Barbie, um oficial da SS de Hitler que tinha sido chefe da Gestapo em Lyon, na França, onde recebeu o apelido de "o talhante de Lyon". Embora ele tivesse sido responsável por crimes hediondos, o Exército dos EUA encarregou-o da espionagem na França. Quando Barbie foi finalmente trazido de volta à França, em 1982, para ser julgado como criminoso de guerra, o seu emprego como agente foi assim explicado pelo coronel (aposentado) Eugene Kolb, orpo de contra-espionagem do Exército americano: "As 'habilidades' [de Barbie] eram um mal necessário... As suas barbaridades tinham sido dirigidas contra o clandestino Partido Comunista e contra a Resistência Francesa", que já eram alvo da repressão dos "libertadores" norte-americanos. Já que os Estados Unidos continuavam onde os nazistas tinham desistido, fazia muito sentido aproveitar os especialistas em atividades anti-resistência. Mais tarde, quando se tornou difícil, ou impossível, proteger esse valioso pessoal na Europa, muitos deles esconderam-se nos Estados Unidos ou na América Latina, muitas vezes com a ajuda do Vaticano e de padres fascistas. Lá, eles tornaram-se conselheiros militares de governos policiais, apoiados pelos Estados Unidos, inspirados, muitas vezes quase abertamente, no Terceiro Reich. Eles também se tornaram traficantes de droga, comerciantes de armas, terroristas e educadores - ensinando a camponeses latino-americanos técnicas de tortura inventadas pela Gestapo. Alguns alunos nazistas fizeram o trabalho de casa na América Central, estabelecendo, deste modo, uma ligação directa entre os campos de extermínio e os esquadrões da morte, tudo graças à aliança pós-guerra entre os EUA e os ex-membros das SS.
17 de novembro de 2008
Princípios fundamentais da Constituição.
São tarefas fundamentais do Estado:
designadamente, o carácter ultraperiférico dos arquipélagos dos Açores e da Madeira;
E vejam como se protege a natureza e o ambiente:
Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América III. Por Noam Chomsky.
Durante a Segunda Guerra Mundial, grupos de estudo do Departamento de Estado e do Conselho de Relações Exteriores desenvolveram planos para o mundo pós-guerra nos termos do que eles
determinaram como a "Grande Área", para que esta fosse subordinada às necessidades da economia norte-americana. Estavam incluídos na "Grande Área" o Hemisfério Ocidental, a Europa Ocidental, o Oriente, o antigo Império Britânico (que estava a ser desmantelado), as incomparáveis fontes de energia do Médio Oriente (que estavam a passar então para as mãos americanas ao mesmo tempo que expulsávamos os nossos rivais, França e Inglaterra), o resto do Terceiro Mundo e, se possível, o mundo inteiro. Esses planos foram sendo executados à medida que as oportunidades permitiam.
A cada sector da nova ordem mundial foi designada uma função específica. Os países
industrializados seriam guiados pelas "grandes oficinas", Alemanha e Japão, que tinham
demonstrado as suas proezas na guerra (e agora trabalhavam sob a supervisão norte-americana). Ao Terceiro Mundo cabia “executar a sua principal função de fonte de matérias –primas e de mercado” para as sociedades industriais capitalistas, como dizia um memorando do Departamento de Estado, de 1949. Era para ser “explorado” (nas palavras de Kennan) para a reconstrução da Europa e do Japão. As referências foram feitas ao Sudeste Asiático e a África, mas as questões foram colocadas de modo geral.
Kennan sugeriu até mesmo que a Europa receberia assim um estímulo psicológico com o projeto de “exploração” da África. Naturalmente, ninguém sugeriu que a África explorasse a Europa para a sua reconstrução, melhorando talvez o seu estado de espírito. Esses documentos libertados são lidos somente por estudiosos, que parecem não encontrar nada de estranho ou dissonante em tudo isso.
A Guerra do Vietname emergiu da necessidade de garantir esse papel de serviçal. Os vietnamitas
nacionalistas não quiseram aceitar isso e, portanto, tinham de ser esmagados. A ameaça não era a de que eles pudessem conquistar alguém, mas que eles poderiam dar um exemplo perigoso de
independência nacional, que inspiraria outros países na região. O governo dos EUA tinha de desempenhar dois importantes papéis. O primeiro era o de garantir os distantes domínios da “Grande Área”. Isso exigia uma postura bastante ameaçadora, para assegurar que ninguém interferisse nessa tarefa – motivo pelo qual houve tantas campanhas dirigidas para as
armas nucleares. O segundo papel era conseguir subvenções públicas para a indústria de alta tecnologia. Por vários motivos, o método adoptado tem sido, em grande parte, a aplicação em gastos militares.
Livre comércio é um bom termo para ser utilizado nos departamentos de economia e em editoriais de jornais, mas ninguém do mundo empresarial, nem do governo, leva a sério essa doutrina. Os sectores da economia americana que podem competir internacionalmente são, principalmente, aqueles subvencionados pelo governo: a agricultura intensiva, em termos de capital (a agroempresa, como é chamada), a indústria de alta tecnologia, a indústria farmacêutica, a indústria biotecnológica, etc. O mesmo é válido para outras sociedades industriais. O governo dos EUA faz o povo pagar pela pesquisa e pelo desenvolvimento e proporciona, em grande parte por intermédio dos militares, um mercado garantido para a produção supérflua. Se algo é transacionável, o sector privado encarrega-se dele. O sistema de subsídio público e lucro privado é o que eles chamam de livre empresa.
15 de novembro de 2008
Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América II. Por Noam Chomsky.
O CSN 68 é o extremo da linha dura, e lembre-se: as políticas não eram somente teóricas, muitas delas já estavam realmente a ser implementadas. Agora, vejamos o outro extremo: o grupo denominado "os pombos", onde o principal pombo era, sem dúvida, George Kennan, que dirigiu a equipe de planeamento do Departamento de Estado até 1950, quando foi substituído por Nitze. A propósito, o escritório de Kennan foi responsável pela rede de Gehlen. Kennan era um dos mais inteligentes e lúcidos estrategas dos EUA e uma das mais importantes personalidades na configuração do mundo pós-guerra. Os seus escritos são uma ilustração extremamente interessante da posição dos "pombos". Se alguém quiser realmente conhecer esse país, um documento bom para consultar é o Estudo de Planeamento Político 23, escrito por Kennan
para a equipe de planeamento do Departamento de Estado, em 1948. Eis aqui um exemplo do seu conteúdo:
Nós temos cerca de 50% da riqueza mundial, mas somente 6,3% da sua população... Nesta
situação, não podemos deixar de ser alvo de inveja e ressentimento. A nossa verdadeira tarefa, na próxima fase, é planear um padrão de relações que nos permitirá manter esta posição de
desigualdade... Para agir assim, teremos de dispensar todo o sentimentalismo e devaneio; a nossa atenção deve concentrar-se em toda parte, nos nossos objetivos nacionais imediatos... Precisamos parar de falar de vagos e... irreais objectivos, tais como direitos humanos, elevação do padrão de vida e democratização. Não está longe o dia em que teremos de lidar com conceitos de poder directo. Então, quanto menos impedidos formos por slogans idealistas, melhor.
O EPP 23 era, logicamente, um documento altamente secreto. Para pacificar o povo, era necessário difundir "slogans idealistas" (como ainda é constantemente feito), mas aqui os estrategas falavam entre si.
Seguindo essas mesmas linhas, numa reunião de embaixadores americanos na América Latina, em 1950, Kennan observou que a maior preocupação da política externa norte-americana deve ser "a proteção das nossas (isto é, da América Latina) matérias-primas". Devemos, portanto, combater a perigosa heresia que, segundo informava a Inteligência americana, estava a espalhar-se pela América Latina: "A ideia de que o governo tem responsabilidade directa pelo bem do povo".
pessoas que a defendem. Elas podem formar grupos de auto-ajuda, baseados na Igreja, ou quaisquer outros, mas se elas apoiam tal heresia, elas são comunistas.
Essa posição é também clara nos arquivos públicos. Por exemplo, um grupo de estudos de alto nível declarou, em 1955, que a ameaça principal das potências comunistas (o verdadeiro sentido do termo comunismo na prática) é a recusa em exercer o seu papel serviçal, isto é, o de "complementar as economias industriais do Ocidente".
Kennan seguiu explicando os meios que devíamos utilizar contra os inimigos que caíam nessa
heresia: A resposta final pode ser desagradável, mas... não devemos hesitar diante da repressão policial do governo local. Isso não é vergonhoso, porque os comunistas são essencialmente traidores... É melhor ter um regime forte no poder do que um governo liberal, indulgente, brando e infiltrado de comunistas.
Tais políticas não começaram com liberais pós-guerra como Kennan. Há trinta anos, o secretário de Estado Woodrow Wilson já havia declarado que o significado prático da Doutrina Monroe levava em conta que "os Estados Unidos consideram os seus próprios interesses. A integridade das outras nações americanas é um mero acidente, não um fim". Wilson, o grande apóstolo da
autodeterminação, concordou que o argumento era "irrefutável", embora fosse "apolítico"
apresentá-lo publicamente. Wilson agiu de acordo com esse pensamento ao invadir, entre outras coisas, o Haiti e a República Dominicana, onde os seus soldados assassinaram, destruíram e demoliram o sistema político vigente, deixando as empresas norte-americanas firmemente no controle e preparando, assim, o cenário para ditaduras brutais e corruptas.
Jeremias o fora-da-lei.
Vou falar-vos dum curioso personagem: Jeremias, o fora-da-lei
Para Jeremias nada se assemelha à magia da dinamite
Há quem veja em Jeremias apenas mais uma vítima da sociedade
Porque nunca foi a ambição, nem a vingança, que o levou a desprezar a lei
Jeremias gosta do guarda roupa negro e dos mitos do fora-da-lei
Gosta de tesouros e mapas sobretudo daqueles que o tempo mais maltratou
Jorge Palma, álbum "O Lado Errado da Noite".
Atenção pá que a luta não é para todos!
15 Novembro, 2008 16:17"

