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4 de abril de 2012

John Perkins. “Portugal está a ser assassinado, como muitos países do terceiro mundo já foram”

Chamou-se a si próprio assassino económico no livro “Confessions of an Economic Hit Man”, que se tornou bestseller do “New York Times”.

Em tempos consultor na empresa Chas. T. Main, John Perkins andou dez anos a fazer o que não devia, convencendo países do terceiro mundo a embarcar em projectos megalómanos, financiados com empréstimos gigantescos de bancos do primeiro mundo. Um dia, estava nas Caraíbas, percebeu que estava farto de negócios sujos e mudou de vida. Regressou a Boston e, para compensar os estragos que tinha feito, decidiu usar os seus conhecimentos para revelar ao mundo o jogo que se joga nos bastidores financeiros.Como se passa de assassino económico a activista? Em primeiro lugar é preciso passar-se por uma forte mudança de consciência e entender o papel que se andou a desempenhar. Levei algum tempo a compreender tudo isto. Fui um assassino económico durante dez anos e durante esse período achava que estava a agir bem. Foi o que me ensinaram e o que ainda ensinam nas faculdades de Gestão: planear grandes empréstimos para os países em desenvolvimento para estimular as suas economias. Mas o que vi foi que os projectos que estávamos a desenvolver, centrais hidroeléctricas, parques industriais, e outras coisas idênticas, estavam apenas a ajudar um grupo muito restrito de pessoas ricas nesses países, bem como as nossas próprias empresas, que estavam a ser pagas para os coordenar. Não estávamos a ajudar a maioria das pessoas desses países porque não tinham dinheiro para ter acesso à energia eléctrica, nem podiam trabalhar em parques industriais, porque estes não contratavam muitas pessoas. Ao mesmo tempo, essas pessoas estavam a tornar-se escravos, porque o seu país estava cada mais afundado em dívidas. E a economia, em vez de investir na educação, na saúde ou noutras áreas sociais, tinha de pagar a dívida. E a dívida nunca chega a ser paga na totalidade. No fim, o assassino económico regressa ao país e diz-lhes “Uma vez que não conseguem pagar o que nos devem, os vossos recursos, petróleo, ou o que quer que tenham, vão ser vendidos a um preço muito baixo às nossas empresas, sem quaisquer restrições sociais ou ambientais”. Ou então, “Vamos construir uma base militar na vossa terra”. E à medida que me fui apercebendo disto a minha consciência começou a mudar. Assim que tomei a decisão de que tinha de largar este emprego tudo foi mais fácil. E para diminuir o meu sentimento de culpa senti que precisava de me tornar um activista para transformar este mundo num local melhor, mais justo e sustentável através do conhecimento que adquiri. Nessa altura a minha mulher e eu tivemos um bebé. A minha filha nasceu em 1982 e costumava pensar como seria o mundo quando ela fosse adulta, caso continuássemos neste caminho. Hoje já tenho um neto de quatro anos, que é uma grande inspiração para mim e me permite compreender a necessidade de viver num sítio pacífico e sustentável.

Houve algum momento em particular em que tenha dito para si mesmo “não posso fazer mais isto”? Sim, houve. Fui de férias num pequeno veleiro e estive nas Ilhas Virgens e nas Caraíbas. Numa dessas noites atraquei o barco e subi às ruínas de uma antiga plantação de cana-de-açúcar. O sítio era lindo, estava completamente sozinho, rodeado de buganvílias, a olhar para um maravilhoso pôr do Sol sobre as Caraíbas e sentia-me muito feliz. Mas de repente cheguei à conclusão que esta antiga plantação tinha sido construída sobre os ossos de milhares de escravos. E depois pensei como todo o hemisfério onde vivo foi erguido sobre os ossos de milhões de escravos. E tive também de admitir para mim mesmo que também eu era um esclavagista, porque o mundo que estava a construir, como assassino económico, consistia, basicamente, em escravizar pessoas em todo o mundo. E foi nesse preciso momento que me decidi a nunca mais voltar a fazê-lo. Regressei à sede da empresa onde trabalhava em Boston e demiti-me.
E qual foi a reacção deles? De início ninguém acreditou em mim. Mas quando se aperceberam de que estava determinado tentaram demover-me. Fizeram-me propostas muito interessantes. Mas fui-me embora à mesma e deixei por completo de me envolver naquele tipo de negócios.
Diz que os assassinos económicos são profissionais altamente bem pagos que enganam os países subdesenvolvidos, recorrendo a armas como subornos, relatórios falsificados, extorsões, sexo e assassinatos. Pode explicar às pessoas que não leram o seu livro como tudo isto funciona? Basicamente, aquilo que fazíamos era escolher um país, por exemplo a Indonésia, que na década de 70 achávamos que tinha muito petróleo do bom. Não tínhamos a certeza, mas pensávamos que sim. E também sabíamos que estávamos a perder a guerra no Vietname e acreditávamos no efeito dominó, ou seja, se o Vietname caísse nas mãos dos comunistas, a Indonésia e outros países iriam a seguir. Também sabíamos que a Indonésia tinha a maior população muçulmana do mundo e que estava prestes a aliar-se à União Soviética, e por isso queríamos trazer o país para o nosso lado. Fui à Indonésia no meu primeiro serviço e convenci o governo do país a pedir um enorme empréstimo ao Banco Mundial e a outros bancos, para construir o seu sistema eléctrico, centrais de energia e de transmissão e distribuição. Projectos gigantescos de produção de energia que de forma alguma ajudaram as pessoas pobres, porque estas não tinham dinheiro para pagar a electricidade, mas favoreceram muito os donos das empresas e os bancos e trouxeram a Indonésia para o nosso lado. Ao mesmo tempo, deixaram o país profundamente endividado, com uma dívida que, para ser refinanciada pelo Fundo Monetário Internacional, obrigou o governo a deixar as nossas empresas comprarem as empresas de serviços básicos de utilidade pública, as empresas de electricidade e de água, construir bases militares no seu território, entre outras coisas. Também acordámos algumas condicionantes, que garantiam que a Indonésia se mantinha do nosso lado, em vez de se virar para a União Soviética ou para outro país que hoje em dia seria provavelmente a China.

Trabalhou de muito perto com o Banco Mundial? Muito, muito perto. Muito do dinheiro que tínhamos vinha do Banco Mundial ou de uma coligação de bancos que era, geralmente, liderada pelo Banco Mundial.
Sugere no seu livro que os líderes do Equador e do Panamá foram assassinados pelos Estados Unidos. No entanto, existem vários historiadores que defendem que isso não é verdade. O que acha que aconteceu com Jaime Roldós e Omar Torrijos? Não existem provas sólidas quer do que aconteceu no Equador, com Roldós, quer do que se passou no Panamá, com Torrijos. Porém, existem muitas provas circunstanciais. Por exemplo, Roldós foi o primeiro a morrer, num desastre de avião em Maio de 1981, e a área do acidente foi vedada, ninguém podia ir ao local onde o avião se despenhou, excepto militares norte-americanos ou membros do governo local por eles designados. Nem a polícia podia lá entrar. Algumas testemunhas-chave do desastre morreram em acidentes estranhos antes de serem chamadas a depor. Um dos motores do avião foi enviado para a Suíça e os exames mostram que parou de funcionar quando estava ainda no ar e não ao chocar contra a montanha. Isto é, existem provas circunstanciais tremendas em torno desta morte, e além disso todos estavam à espera que Jaime Roldós fosse derrubado ou assassinado porque não estava a jogar o nosso jogo. Logo depois de o seu avião se ter despenhado, Omar Torrijos juntou a família toda e disse: “O meu amigo Jaime foi assassinado e eu vou ser o próximo, mas não se preocupem, alcancei os objectivos que queria alcançar, negociei com sucesso os tratados do canal com Jimmy Carter e esse canal pertence agora ao povo do Panamá, tal como deve ser. Por isso, depois de eu ser assassinado, devem sentir-se bem por tudo aquilo que conquistei.” A verdade é que os EUA, a CIA e pessoas como o Henry Kissinger admitiram que o nosso país tinha derrubado Salvador Allende, no Chile; Jacobo Arbenz, na Guatemala; Mohammed Mossadegh, no Irão; participámos no afastamento de Patrice Lumumba, no Congo; de Ngô Dinh Diem, no Vietname. Existem inúmeros documentos sobre a história dos EUA que provam que fizemos estas coisas e continuamos a fazê-las. Sabe-se que estivemos profundamente envolvidos, em 2009, no derrube no presidente Manuel Zelaya, nas Honduras, e na tentativa de afastar Rafael Correa, no Equador, também há não muito tempo. Os EUA admitiram muitas destas coisas e pensar que eles não estiveram envolvidos nos homicídios de Roldós e Torrijos... Estes dois homens foram assassinados quase da mesma forma, num espaço de três meses. Ambos tinham posições contrárias aos EUA e às suas empresas e estavam a assumir posições fortes para defender os seus povos – é pouco razoável pensar o contrário.

Algumas pessoas acusam-no de ser um teórico da conspiração. O que tem a dizer sobre isso? Bem, não sou, de modo nenhum, um teórico da conspiração. Não acredito que exista uma pessoa ou um grupo de pessoas sentadas no topo a tomar todas as decisões. Mas torno muito claro no meu último livro, “Hoodwinked” (2009), e também em “Confessions of an Economic Hit Man” (2004) – editado em Portugal pela Pergaminho em 2007 com o título “Confissões de Um Mercenário Económico: a Face Oculta do Imperialismo Americano” –, que as multinacionais são movidas por um único objectivo que é maximizar os lucros, independentemente das consequências sociais e ambientais. Estes últimos são novos objectivos que não eram ensinados quando estudei Gestão, no final dos anos 60. Ensinaram-me que havia apenas este objectivo entre muitos outros, por exemplo tratar bem os funcionários, dar-lhes uma boa assistência na saúde e na reforma, ter boas relações com os clientes e os fornecedores, e também ser um bom cidadão, pagar impostos e fazer mais que isso, ajudar a construir escolas e bibliotecas. Tudo se agravou nos anos 70, quando Milton Friedman, da escola de economia de Chicago, veio dizer que a única responsabilidade no mundo dos negócios era maximizar os lucros, independentemente dos custos sociais e ambientais. E Ronald Reagan, Margaret Thatcher e muitos outros líderes mundiais convenceram-se disso desde então. Todas estas empresas são orientadas segundo este objectivo e quando alguma coisa o ameaça, seja um acordo de comércio multilateral seja outra coisa qualquer, juntam-se para garantir que o mesmo é protegido. Isto não é uma conspiração, uma conspiração é ilegal, isto que fazem não é. No entanto, é extremamente prejudicial para a economia mundial.Também escreveu que o objectivo último dos EUA é construir um império global. Como vê a recente estratégia norte-americana contra a China e o Irão?Actualmente, podemos dizer que o novo império não é tanto americano como formado por multinacionais. Penso que a ditadura das grandes empresas e dos seus líderes forma hoje a versão moderna desse império. Repito, isto não é uma conspiração, mas todos eles são movidos por esse objectivo de que falámos anteriormente.Mas vários especialistas defendem que estamos num cenário de terceira guerra mundial, com a China, a Rússia e o Irão de um lado e os EUA, a União Europeia (UE) e Israel do outro. E que toda a conversa de Washington em torno do programa nuclear iraniano não passa de uma grande mentira. Não acredito que todo este conflito seja motivado por armas nucleares. Na verdade, vários estudos recentes, alguns deles das mais respeitadas agências de informações norte-americanas, mostram que não existem armas nucleares no Irão. E acredito que tudo isto não se deve apenas aos recursos iranianos mas também à ameaça de Teerão de vender petróleo no mercado internacional numa moeda que não o dólar, uma ameaça também feita por Muammar Kadhafi, na Líbia, e Saddam Hussein, no Iraque. Os norte-americanos não gostam que ameacem o dólar e não gostam que ameacem o seu sistema bancário, algo que todos esses líderes fizeram – o líder do Irão, o líder do Iraque, o líder da Líbia. Derrubaram dois deles e o terceiro ainda lá está. Penso que é disto que se trata. Não tenho dúvidas de que a Rússia está a gostar de ver a agitação entre a UE e o Irão, porque Moscovo tem muito petróleo e, se os fornecedores iranianos deixarem de vender, o preço do petróleo vai subir, o que será uma grande ajuda para a Rússia. É difícil acreditar que qualquer destes países queira mesmo entrar numa terceira guerra mundial. No fundo, o que querem é estar constantemente a confundir as pessoas, parecendo que querem entrar em conflito e ajudar a alimentar as máquinas de guerra, porque isso ajuda uma série de grandes empresas.Como durante a Guerra Fria? Sim, como durante a Guerra Fria, porque isso é bom para os negócios. No fundo, estes países estão todos a servir os interesses das grandes empresas. Há algumas centenas de anos, a geopolítica era maioritariamente liderada por organizações religiosas; depois os governos assumiram esse poder. Agora chegámos à fase em que a geopolítica é conduzida em primeiro lugar pelas grandes multinacionais. E elas controlam mesmo os governos de todos os países importantes, incluindo a Rússia, a China e os EUA. A economia da China nunca poderia ter crescido da forma que cresceu se não tivesse estabelecido fortes parcerias com grandes multinacionais. E todos estes países são muito dependentes destas empresas, dos presidentes destas empresas, que gostam de baralhar as pessoas, porque constroem muitos mísseis e todo o tipo de armas de guerra. É uma economia gigante. A economia norte-americana está mais baseada nas forças armadas que noutra coisa qualquer. Representa a maior fatia do nosso orçamento oficial e uma parte maior ainda do nosso orçamento não oficial. Por isso tanto a guerra como a ameaça de guerra são muito boas para as grandes multinacionais. Mas não acredito que haja alguém que nos queira ver de facto entrar em guerra, dada a natureza das armas. Penso que todas as pessoas sabem que seria extremamente destrutivo.

Como avalia o trabalho de Barack Obama enquanto presidente dos EUA? Penso que se esforçou muito por agir bem, mas está numa posição extremamente vulnerável. Assim que alguém entra na Casa Branca, sejam quais forem as suas ideias políticas, os seus motivos ou a sua consciência, sabe que é muito vulnerável e que o presidente dos EUA, ou de outro país importante, pode ser facilmente afastado. Nalgumas partes do mundo, como a Líbia ou o Irão, talvez só com balas o seu poder possa ser derrubado, mas em países como os EUA um líder pode ser afastado por um rumor ou uma acusação. O presidente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, ver a sua carreira destruída por uma empregada de quarto de um hotel, que o acusou de violação, foi um aviso muito forte a Obama e a outros líderes mundiais. Não estou a defender Strauss-Kahn – não faço a mínima ideia de qual é a verdade por trás do que aconteceu, mas o que sei é que bastou uma acusação de uma empregada de quarto para destruir a sua carreira, não só como director do FMI mas também como potencial presidente francês. Bill Clinton também foi afastado por um escândalo sexual, mas no tempo de John Kennedy estas coisas não derrubavam presidentes. Só as balas. Porém, descobrimos com Bill Clinton que um escândalo sexual – e não é preciso ser uma coisa muito excitante, porque aparentemente ele nem sequer teve sexo com a Monica Lewinsky, fizeram uma coisa qualquer com um charuto que já não me lembro – foi o suficiente para o descredibilizar. Por isso Obama está numa posição muito vulnerável e tem de jogar o jogo e fazer o melhor que pode dentro dessas limitações. Caso contrário, será destruído.

No fim do ano passado escreveu um artigo onde afirmava que a Grécia estava a ser atacada por assassinos económicos. Acha que Portugal está na mesma situação? Sim, absolutamente, tal como aconteceu com a Islândia, a Irlanda, a Itália ou a Grécia. Estas técnicas já se revelaram eficazes no terceiro mundo, em países da América Latina, de África e zonas da Ásia, e agora estão a ser usadas com êxito contra países como Portugal. E também estão a ser usadas fortemente nos EUA contra os cidadãos e é por isso que temos o movimento Occupy. Mas a boa notícia é que as pessoas em todo o mundo estão a começar a compreender como tudo isto funciona. Estamos a ficar mais conscientes. As pessoas na Grécia reagiram, na Rússia manifestam-se contra Putin, os latino-americanos mudaram o seu subcontinente na última década ao escolher presidentes que lutam contra a ditadura das grandes empresas. Dez países, todos eles liderados por ditadores brutais durante grande parte da minha vida, têm agora líderes democraticamente eleitos com uma forte atitude contra a exploração. Por isso encorajo as pessoas de Portugal a lutar pela sua paz, a participar no seu futuro e a compreender que estão a ser enganadas. O vosso país está a ser saqueado por barões ladrões, tal como os EUA e grande parte do mundo foi roubado. E nós, as pessoas de todo o mundo, temos de nos revoltar contra os seus interesses. E esta revolução não exige violência armada, como as revoluções anteriores, porque não estamos a lutar contra os governos mas contra as empresas. E precisamos de entender que são muito dependentes de nós, são vulneráveis, e apenas existem e prosperam porque nós lhes compramos os seus produtos e serviços. Assim, quando nos manifestamos contra elas, quando as boicotamos, quando nos recusamos a comprar os seus produtos e enviamos emails a exigir-lhes que mudem e se tornem mais responsáveis em termos sociais e ambientais, isso tem um enorme impacto. E podemos mudar o mundo com estas atitudes e de uma forma relativamente pacífica.Mas as próprias empresas deviam ver que a ditadura das multinacionais é um beco sem saída.Bem, penso que está absolutamente certa. Há alguns meses estive a falar numa conferência para 4 mil CEO da indústria das telecomunicações em Istambul e vou regressar lá, dentro de um mês, para uma outra conferência de CEO e CFO de grandes empresas comerciais, e digo-lhes a mesma coisa. Falo muitas vezes com directores-executivos de empresas e sou muitas vezes chamado a dar palestras em universidades de Gestão ou para empresários e também lhes digo o mesmo. Aquilo que fizemos com esta economia mundial foi um fracasso. Não há dúvida. Um exemplo disso: 5% da população mundial vive nos EUA e, no entanto, consumimos cerca de 30% dos recursos mundiais, enquanto metade do mundo morre à fome ou está perto disso. Isto é um fracasso. Não é um modelo que possa ser replicado em Portugal, ou na China ou em qualquer lado. Seriam precisos mais cinco planetas sem pessoas para o podermos copiar. Estes países podem até querer reproduzi-lo, mas não conseguiriam. Por isso é um modelo falhado e você tem razão, porque vai acabar por se desmoronar. Por isso o desafio é como mudamos isto e como apelar às grandes empresas para fazerem estas mudanças. Obrigando-as e convencendo-as a ser mais sustentáveis em termos sociais e ambientais. Porque estas empresas somos basicamente nós, a maioria de nós trabalha para elas e todos compramos os seus produtos e serviços. Temos um enorme poder sobre elas. Por definição, uma espécie que não é sustentável extingue-se. Vivemos num sistema falhado e temos de criar um novo. O problema é que a maior parte dos executivos só pensa a curto prazo, não estão preocupados com o tipo de planeta que os seus filhos e os seus netos vão herdar.

Podemos afirmar que esta crise mundial foi provocada por assassinos económicos e rotular os líderes da troika como serial killers?Penso que é justo dizer que os assassinos económicos são os homens de mão, nós, os soldados, e os presidentes das grandes multinacionais e de organizações como o Banco Mundial, o FMI ou Wall Street, os generais.
Ainda há dias o “Financial Times” divulgou que os gestores financeiros de Wall Street andavam a tomar testosterona para se tornarem ainda mais competitivos. Isto faz parte do beco sem saída de que está a falar? A sério?! Ainda não tinha ouvido isso, mas não me surpreende nada. No entanto, aquilo que precisamos hoje em dia é de um lado feminino, temos de caminhar na direcção oposta e livrar-nos dessa testosterona. Precisamos de mais líderes mulheres, mulheres reais – não homens vestidos com roupas de mulher, por assim dizer – para trazerem com elas os valores de receptividade e do apoio e encorajarem os homens a cultivar isso neles próprios. Nós, homens, temos de estar muito mais ligados ao nosso lado feminino.

Se fôssemos apresentar esta crise económica à polícia, quem seriam os criminosos a acusar? Pense em qualquer grande multinacional e à frente dessa multinacional estará alguém responsável pela ditadura empresarial, seja a Goldman Sachs, em Wall Street, seja a Shell, a Monsanto ou a Nike. Todos os líderes dessas empresas estão profundamente envolvidos em tudo isto e, da mesma forma, estão os líderes do FMI, do Banco Mundial e de outras grandes instituições bancárias. Detesto estar a dar nomes, estas pessoas estão sempre a mudar de emprego, por isso prefiro apontar os cargos. Eles estão sempre em rotação, por exemplo, o nosso antigo presidente, George W. Bush, veio da indústria petrolífera. A sua secretária de Estado, Condoleezza Rice, também veio da indústria petrolífera. Já Obama tem a sua política financeira concebida por Wall Street, maioritariamente pela Goldman Sachs. Mudaram-se da empresa para a actual administração norte-americana. A sua política de agricultura é feita por pessoas da Monsanto e de outras grandes empresas do sector. E a parte triste é que assim que o seu tempo expirar em Washington voltam para essas empresas. Vivemos num sistema incrivelmente corrupto. Aquilo a que chamamos política das portas giratórias é só uma outra designação de corrupção extrema.

Notícia aqui.

Perceberam, ou será necessário fazer um desenho?

9 de setembro de 2010

Nunca é de mais lembrar...

Chomsky e as 10 Estratégias de Manipulação Mediática. O linguísta dos Estados Unidos Noam Chomsky elaborou a lista das "10 estratégias de manipulação" através da comunicação social:

1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à quinta como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranquilas')".

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.
Este método também é chamado "problema-reação-solução". Cria-se um problema, uma "situação" prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise económica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO.
Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioe-conómicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO.
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo "dolorosa e necessária", obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE.
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entoação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar o espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? "Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver "Armas silenciosas para guerras tranquilas")".

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO.
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos...

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. "A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver 'Armas silenciosas para guerras tranquilas')".

8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE.
Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto...

9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE.
Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema económico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.
No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

24 de julho de 2009

Lista dos maiores poluidores mundiais com CO2.

Um novo estudo realizado estabeleceu o ranking mundial dos países que mais emitem dióxido de carbono por pessoa através da produção de electricidade, ou seja, os mais poluentes. Segundo a investigação realizada pela Carbon Monitoring Action (CARMA), os Estados Unidos produzem um quarto das emissões de dióxido de carbono do planeta a partir de geração de electricidade, seguidos pela República Popular da China.
Emissões mundiais no Sector da Energia:

1) E.U.A. - 2530 milhões de toneladas de CO2
2) China - 2430 milhões de toneladas de CO2
3) Rússia - 600 milhões de toneladas de CO2
4) Índia - 529 milhões de toneladas de CO2
5) Japão - 363 milhões de toneladas de CO2
6) Alemanha - 323 milhões de toneladas de CO2
7) Austrália - 205 milhões de toneladas de CO2
8) África do Sul - 201 milhões de toneladas de CO2
9) Reino Unido - 192 milhões de toneladas de CO2
10) Coreia do Sul-168 milhões de de toneladas de CO2
Dados retirados aqui.
Como ser o país mais rico do mundo? É fácil! Explora-se o resto do mundo, a começar pelos países menos desenvolvidos, que normalmente coincidem com as maiores e abundantes riquezas naturais, usufrui-se de baixos preços das matérias-primas, obtidos se necessário com intervenções militares desproporcionadas, possui-se a maior dívida externa do mundo, polui-se de escape livre sem qualquer preocupação ambiental, e pronto, já está! Fácil, não? Sempre quero ver como é que o Obama se vai conseguir impôr à máquina de guerra americana, que se encontra intimamente ligada à sua economia interna...

3 de fevereiro de 2009

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XXV. Por Noam Chomsky.

A luta continua.

A luta pela liberdade nunca termina. As pessoas do Terceiro Mundo necessitam da nossa compreensão solidária e, muito mais do que isso, elas necessitam da nossa ajuda. Podemos proporcionar-lhes uma margem de sobrevivência, por meio de uma dissidência interna nos Estados Unidos. Para eles serem bem-sucedidos contra qualquer tipo de brutalidade imposta por nós, depende muito do que acontece aqui. A coragem que eles demonstram é bastante admirável. Eu tive pessoalmente o privilégio – e é um privilégio – de perceber de relance essa coragem em primeira mão, no Sudeste Asiático, na América Central e na Cisjordânia ocupada. É uma experiência comovedora e inspiradora, e invariavelmente traz à minha mente as palavras de desprezo de Rousseau sobre os europeus, que abandonaram a liberdade e a justiça pela paz e pela tranquilidade que “eles desfrutam nas suas prisões”. E ele segue dizendo: Quando eu vejo multidões de selvagens inteiramente nus, gozando com a insaciável volúpia europeia e suportando a fome, o fogo, a espada e a morte para preservar apenas a sua independência, eu sinto que não cabe a escravos raciocinar sobre a liberdade. Quem pensa que essas são meras palavras, entende muito pouco sobre o mundo. Essa é apenas uma parte da tarefa que nos espera. Há um Terceiro Mundo a crescer à nossa porta. Há um verdadeiro sistema de autoridades ilegítimas em cada canto do mundo cultural, económico, político e social. Pela primeira vez na história da humanidade temos de enfrentar os problemas de protecção ambiental, que possa sustentar uma existência humana decente. Não sabemos se um esforço honesto e dedicado será suficiente para resolver ou mesmo diminuir tais problemas. Podemos estar certos, entretanto, que a falta de tais esforços significará um desastre.

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XXIV. Por Noam Chomsky.

O que se pode fazer.

Em qualquer país, há alguns grupos que detêm o verdadeiro poder. Não é um grande segredo onde está o poder nos EUA. Ele está basicamente concentrado nas mãos das pessoas que determinam as decisões de investimentos – o que é produzido e o que é distribuído. Eles em geral formam a equipa de governo que escolhe os estrategas e fixam as condições gerais do sistema doutrinário. Uma das coisas que eles mais querem é uma população passiva e aquiescente. Então, uma das coisas que se pode fazer para lhes tornar a vida incómoda é não ser passivo e aquiescente. Há várias maneiras de fazer isso. Mesmo fazendo apenas perguntas que possam surtir um efeito importante. Manifestar-se, escrever cartas e votar podem ser acções bastante significativas, dependendo da situação. Mas o ponto principal é ser persistente e organizado. Se formos a uma manifestação e depois voltarmos para casa, já é alguma coisa, mas o pessoal no poder pode conviver com isso. Com o que eles não podem conviver é com uma contínua pressão que se mantém estruturada, com organizações que continuam fazendo as coisas acontecerem e com gente que continua aprendendo lições da última vez para agir melhor na próxima vez. Qualquer sistema de poder, mesmo uma ditadura fascista, é sensível à dissidência da opinião pública. Isso também é verdadeiro num país como este, onde, felizmente, o Estado não tem muita força para coagir o povo. Durante a Guerra do Vietname, a resistência directa à guerra foi bastante significativa, e esse foi um preço que o governo teve de pagar. Se as eleições são algo em que parte da população comparece e aperta um botão a cada par de anos, eles não se incomodam. Mas se os cidadãos se organizam para tomar uma posição e pressionar os seus representantes a respeito disso, aí sim as eleições podem incomodar.

Os membros da Câmara dos Deputados podem ser muito mais facilmente influenciáveis que os
senadores, e os senadores um pouco mais que o presidente, que normalmente é imune. Quando se chega a este nível, a política já é quase totalmente decidida pelos ricos e poderosos, que são os
donos e os dirigentes da nação. Mas as pessoas podem-se organizar num nível tal que possa influenciar os seus deputados. Podem trazê-los às suas casas para que os vizinhos gritem os seus protestos, ou podem reunir-se nos gabinetes deles, ou o que melhor funcionar nessas circunstâncias. Isso pode fazer a diferença – frequentemente faz uma grande diferença. Pode-se também fazer a sua própria pesquisa. Não confie apenas na história convencional dos livros e textos de ciência política. Volte às fontes originais e às monografias de especialistas: memorandos
de segurança nacional e outros documentos semelhantes. A maioria das boas bibliotecas têm um
departamento de referências, onde se podem encontrar esses documentos. Isso requer um certo esforço. A maior parte do material é lixo descartável e há que ler uma tonelada de coisas inúteis até encontrar alguma coisa boa. Há guias que fornecem indícios onde melhor procurar, e algumas vezes encontrar-se-ão referências intrigantes em fontes secundárias; frequentemente elas são mal interpretadas, mas sugerem lugares onde pesquisar mais a fundo. Isso não é um grande mistério e nem é intelectualmente difícil. Envolve um certo trabalho, mas qualquer pessoa pode fazê-lo num momento de folga. E o resultado dessas pesquisas pode mudar a mentalidade das pessoas. A verdadeira pesquisa é sempre uma actividade colectiva, e os seus resultados podem trazer uma enorme contribuição, no sentido de transformar consciências, aumentando a compreensão e o entendimento, conduzindo assim a uma acção construtiva.

29 de janeiro de 2009

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XXIII. Por Noam Chomsky.

As coisas mudaram.

É importante reconhecer o quanto o cenário mundial mudou nestes últimos trinta anos em consequência dos movimentos populares, que se organizaram de forma solta e caótica em torno de certas questões como os direitos civis, a paz, o feminismo, o meio ambiente e outros temas de interesse humano. Veja-se os governos Kennedy e Reagan, que foram semelhantes em muitos aspectos das suas políticas e compromissos básicos. Quando Kennedy lançou uma enorme campanha terrorista internacional contra Cuba, após a sua fracassada tentativa de invasão (Baía dos Porcos, em 1961), e quando passou de um terror de Estado assassino no Vietname do Sul para uma franca agressão, não houve então qualquer protesto que se notasse. Só quando centenas de milhares de tropas americanas foram enviadas para a Indochina, que estava sob um ataque devastador, e com o massacre de milhares de pessoas é que os protestos se tornaram um pouco mais do que minimamente significativos. Em contraste, assim que o governo Reagan insinuou que pretendia intervir directamente na América Central, protestos espontâneos brotaram numa escala suficiente para obrigar os terroristas de Estado a procurarem outro meios.
Os líderes podiam vangloriar-se com o fim do “Síndroma do Vietname”, mas eles têm juízo. Num
relatório sobre Política de Segurança Nacional da administração Bush, que ficou conhecido na época do ataque terrestre ao Golfo, podia-se ler que “nos casos em que os EUA enfrentarem inimigos muito mais fracos” – os únicos com os quais o verdadeiro estadista concordará em lutar –, “o nosso desafio não será simplesmente derrotá-los, mas derrotá-los de modo rápido e fulminante”. Qualquer outro resultado seria “embaraçoso” e poderia “minar o apoio político”, já percebido como bastante fraco.

Actualmente, a intervenção clássica já não é considerada uma opção. Os métodos limitam-se ao
terror clandestino, mantido oculto da população interna, ou à demolição “rápida e fulminante” de
“inimigos muito mais fracos”, após uma enorme campanha de propaganda, expondo-os como
monstros de poder indescritível. O quadro é quase sempre o mesmo. Veja-se o ano de 1992. Se o quinto centenário do descobrimento de Colombo tivesse sido em 1962, teria havido uma grande comemoração pela libertação do continente. Em 1992, essa expectativa não pôde ser monopolizada, um facto que causou muita histeria entre os dirigentes culturais, que estão acostumados a um controlo quase totalitário dos acontecimentos. Eles agora gritam contra os “excessos fascistas” daqueles que estimulam o respeito pelos outros povos e outras culturas. Em outras áreas também há mais abertura e entendimento, mais cepticismo e questionamento da autoridade. Logicamente, as últimas tendências são uma faca de dois gumes. Elas podem levar ao pensamento independente, à organização popular e a pressões mais que necessárias por transformações institucionais. Ou podem fornecer uma base popular de pessoas amedrontadas para novos líderes autoritários. Esses possíveis resultados não são assunto para especulação, mas para acção, e com enormes riscos.

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XXII. Por Noam Chomsky.

A comunicação social.

Sejam chamadas de “liberais” ou de “conservadoras”, os principais agentes de comunicação social são grandes empresas pertencentes e interligadas a conglomerados ainda maiores. Como as outras empresas, elas vendem um produto para o mercado. O mercado são os anunciantes, isto é, outras empresas. O produto é o público. É a elite da comunicação social que estabelece uma agenda básica, à qual as outras se adaptam. O produto é, portanto, um público relativamente privilegiado. Assim, temos as grandes empresas a vender um público razoavelmente rico e privilegiado a outras empresas. Obviamente, o quadro apresentado reflete os valores e os interesses, estreitos e preconceituosos, dos vendedores, dos compradores e dos produtos. Outros factores reforçam a mesma distorção. Os dirigentes culturais (directores, editores, colunistas importantes, etc.) compartilham interesses de classe e associações com os dirigentes do governo e das empresas, além de outros sectores privilegiados. Há, na verdade, um fluxo regular de pessoal de alto nível entre empresas, governo e comunicação social. Para se ter acesso às autoridades estatais, é importante manter posições competitivas: “vazamento de informações”, por exemplo, são amiúde maquinações produzidas enganosamente por autoridades, em cooperação com a comunicação social, que finge nada saber. Por sua vez, as autoridades estatais exigem cooperação e submissão. Outros centros de poder também têm dispositivos para punir o distanciamento da ortodoxia, abrangendo desde a bolsa de valores até um eficiente sistema de difamação e calúnia. O resultado não é, logicamente, inteiramente uniforme. Para servir aos interesses dos poderosos, a comunicação social deve apresentar um quadro toleravelmente realista do mundo. Entretanto, às vezes a integridade e a honestidade profissional impedem a missão primordial. Os bons jornalistas geralmente são bem conscientes dos factores que caracterizam o produto da comunicação social, e procuram usar as aberturas que aparecem. O resultado é que se pode aprender muito, por meio de uma leitura crítica e isenta, com aquilo que é produzido pela comunicação social.

A comunicação social é apenas uma parte de um sistema doutrinário maior: as outras partes são os jornais de opinião, as escolas e as universidades, as pesquisas académicas, e assim por diante. Estamos mais conscientes da comunicação social, particularmente a comunicação social de maior prestígio, porque é nela que estão concentrados aqueles que analisam criticamente a ideologia. O sistema maior tal como é não tem sido estudado, porque é muito difícil investigá-lo sistematicamente. Mas há bons motivos para acreditar que ele representa os mesmos interesses que os da comunicação social, como qualquer um pode imaginar. O sistema doutrinário, que produz aquilo a que chamamos “propaganda”, ao falar de inimigos tem dois alvos distintos: um do alvos é aquele que, algumas vezes, é chamado de “classe política”, cerca de 20% da população relativamente instruída, mais ou menos articulada e que desempenha algum papel na tomada de decisões. A sua aceitação da doutrina é fundamental, porque ela (a classe política) está em posição de traçar e implementar diretrizes políticas. Em seguida, vêm os outros 80% da população. Estes são “os espectadores da acção”, a quem Lippmann descreveu como a “a horda confusa”. Eles existem supostamente para obedecer a ordens e sair do caminho das pessoas importantes. Eles são o verdadeiro alvo dos meios de comunicação de massa: os tablóides, as telenovelas, a Super Taça e assim por diante. Esses sectores do sistema doutrinário servem para distrair a grande massa e reforçar os valores sociais básicos defendidos: a passividade, a submissão às autoridades, as predominantes virtudes da avareza e da ganância pessoal, a falta de consideração para com os outros, o medo de inimigos reais e imaginários, etc. A finalidade é manter a já confusa horda mais confusa ainda. Não é necessário dizer para que eles não se alheiem do que está a acontecer no mundo. Na verdade, isso é até indesejável, pois se eles
observarem demais a realidade, podem decidir-se a transformá-la. Isso não quer dizer que a comunicação social em geral não possa ser influenciada pela população. As instituições
dominantes – sejam elas políticas, económicas ou doutrinárias – não são imunes às pressões
populares. A comunicação social independente (alternativa) pode também desempenhar um papel importante. Embora ela, até por definição, careça de recursos, tem a mesma importância que as organizações populares: ao reunir pessoas com recursos limitados, que podem multiplicar a sua eficiência e a sua própria compreensão, pela interacção – esta é precisamente a ameaça democrática mais temida pelas elites dominantes.

27 de janeiro de 2009

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XXI. Por Noam Chomsky.

Socialismo, o falso e o verdadeiro.

Pode-se questionar o significado do termo “socialismo”, mas se ele tem algum significado, este é,
antes de tudo, o controle de produção pelos próprios trabalhadores, não pelos donos e dirigentes que os comandam e tomam decisões, seja em empresas capitalistas ou em Estados totalitários. Referir-se à União Soviética como socialista é um interessante caso de duplo sentido doutrinário. O golpe bolchevique, de outubro de 1917, colocou o poder de Estado nas mãos de Lenin e Trotsky, que se apressaram em desmantelar as incipientes instituições socialistas que tinham crescido durante a revolução popular nos meses anteriores – os conselhos de fábricas, os sovietes, na verdade, qualquer órgão de controlo popular – e converteram a força de trabalho naquilo que eles chamaram de “exército de trabalhadores” sob o comando do líder. Em qualquer significado mais profundo do termo “socialismo”, os bolcheviques apressaram-se, mais uma vez, em destruir os componentes socialistas nele existentes. Desde então, nenhuma divergência socialista foi permitida. Esses acontecimentos não causaram nenhuma surpresa aos líderes intelectuais marxistas, que vinham, ao longo dos anos, criticando as doutrinas de Lenin (assim como as de Trotsky) porque elas centralizariam o poder nas mãos dos líderes de um partido de vanguarda. Na verdade, décadas antes, o pensador anarquista Bakunin tinha previsto que os integrantes da classe intelectual, que estava a surgir, seguiriam um dos dois caminhos apresentados: ou tentariam explorar as lutas populares para tomar o poder estatal, tornando-se uma brutal e opressiva burocracia vermelha, ou tornar-se-iam os dirigentes e os ideólogos de uma sociedade capitalista estatal, se a revolução falhasse. Em ambos os casos foi uma observação perspicaz. Os dois mais importantes sistemas de propaganda do mundo não concordavam em muitas coisas, mas concordaram em usar o termo socialismo para se referirem à destruição imediata de todo o componente de socialismo pelos bolcheviques. Isso não surpreende muito. Os bolcheviques apelidaram o seu sistema de socialista para explorar o prestígio moral do socialismo. O Ocidente adoptou a mesma prática por uma razão aposta: difamar os temíveis ideais libertários, associando-os com os cárceres bolcheviques para minar a crença popular de que seria possível o progresso em direcção a uma sociedade mais justa, preocupada com as necessidades e os direitos humanos, pelo controle das suas instituições básicas. Se o socialismo é a tirania de Lenin ou Stalin, então uma pessoa sã dirá: não é para mim. E se essa é a única alternativa ante o capitalismo empresarial de Estado, então muitos submeter-se-ão a essa estrutura autoritária como única escolha razoável. Com o colapso do sistema soviético, há uma oportunidade viva e vigorosa de ressurgir o pensamento libertário socialista, que não foi capaz de resistir aos assaltos repressivos e doutrinários no seu mais importante sistema de poder. O quanto é grande essa esperança não podemos saber. Mas pelo menos uma pedra do caminho já foi removida. Nesse sentido, o desaparecimento da União Soviética é uma pequena vitória para o socialismo, muito mais do que o foi a derrota do poder fascista.

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XX. Por Noam Chomsky.

Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força.

Os termos do discurso político têm tipicamente dois significados. Um é o significado do dicionário,
e o outro é o significado utilizado para servir ao poder – o significado doutrinário. Veja-se o termo democracia. De acordo com o significado comum, uma sociedade é democrática para que uma extensa parte do povo possa participar, de modo significativo, da direcção dos seus interesses. Mas o sentido doutrinário de democracia é diferente: ele refere-se ao sistema no qual as decisões são tomadas pelos sectores da comunidade empresarial e da elite a ela relacionada. O público é apenas “espectador da acção”, não “participante” como os principais teóricos democráticos (neste caso, Walter Lippmann) têm explicado. Ao povo é permitido ratificar as decisões das autoridades superiores e dar apoio a um ou outro representante deles, mas nunca interferir em assuntos – como política pública – que não lhe dizem respeito. Se segmentos do povo saírem da sua apatia e começarem a organizar-se e a entrar na arena pública, isso não será democracia. Será antes uma crise na democracia no exacto uso técnico do termo, será uma ameaça que terá de ser superada de uma ou de outra maneira: em El Salvador, pelos esquadrões da morte, aqui, nos EUA, por meios mais subtis e indirectos. Ou veja-se o termo livre empresa, que na prática se refere ao subsídio público e ao lucro privado, com maciça intervenção governamental para manter um estado de bem-estar para os ricos. Na realidade, é provável que no seu uso corrente qualquer frase contendo a palavra “livre” signifique o oposto do seu sentido real. Veja-se ainda o termo defesa contra a agressão, que é usado – previsivelmente – para se referir à agressão. Quando os EUA atacaram o Sul do Vietname, no início dos anos 1960, o herói liberal Adiai Stevenson (entre outros) explicou que nós estávamos “a defender o Vietname do Sul contra a agressão interna”, isto é, a agressão dos camponeses sul-vietnamitas contra a Força Aérea americana e o exército mercenário mantido pelos EUA, que os arrancava das suas casas para os campos de concentração, onde eles poderiam ser “protegidos” dos guerrilheiros do Sul. De facto, esses camponeses apoiavam com entusiasmo os guerrilheiros, enquanto o regime apoiado pelos EUA era uma casca vazia, com o que todos os lados concordavam. O sistema doutrinário executou tão eficientemente a sua tarefa que até hoje, trinta anos depois, a ideia de que os EUA atacaram o Vietname não é mencionável aqui e conforme tendência geral é até mesmo impensável. As questões essenciais da guerra estão, portanto, fora de uma possível discussão. Os guardiães do politicamente correcto devem estar bastante orgulhosos do seu feito, já que seria difícil repeti-lo, mesmo no mais bem controlado Estado totalitário. Ou veja-se ainda o termo processo de paz; algum ingénuo poderá pensar que ele se refere aos esforços em busca da paz. Sob esse aspecto, poderíamos dizer que o processo de paz no Médio Oriente inclui, por exemplo, a oferta de um completo plano de paz feita a Israel pelo presidente Sadat, do Egipto, em 1971, de acordo com posições defendidas praticamente pelo mundo inteiro, inclusive pela política oficial norte-americana; a resolução do Conselho de Segurança, de janeiro de 1976, apresentada pelos principais países árabes, com o apoio da OLP, que propunha um acordo entre os dois países em conflito, em termos de um consenso internacional quase unânime; as ofertas da OLP, durante a década de 1980, para negociar com Israel um reconhecimento mútuo e os votos anuais na Assembleia Geral da ONU; mais recentemente, em dezembro de 1990, a convocação de uma conferência internacional (por uma votação de 144 a 2) para solucionar o problema israelo-árabe, etc.

Mas um entendimento sofisticado mostra que esses esforços não fazem parte do processo de paz. O motivo é que, no sentido do politicamente correcto, o termo processo de paz refere-se àquilo que o governo norte-americano está a fazer, nos casos mencionados, isto é, a bloquear os esforços internacionais na busca da verdadeira paz. Os casos citados não entram no processo de paz, porque os EUA apoiaram Israel na rejeição à oferta de Sadat, vetaram a resolução do Conselho de Segurança da ONU, opuseram-se às negociações e ao mútuo reconhecimento entre a OLP e Israel, e regularmente aliam-se a Israel em oposição –de facto vetando efectivamente– a qualquer tentativa de avançar em direcção a um acordo diplomático pacífico na ONU ou em qualquer outro lugar. O processo de paz é restrito às iniciativas norte-americanas, que exigem um acordo unilateral determinado pelos EUA, sem reconhecimento dos direitos nacionais palestinianos. É assim que funciona. Aqueles que não podem dominar a fundo essas manobras devem procurar outra profissão. Há muitos outros exemplos. Veja-se o termo interesse especial. Durante os anos 1980, o sistema bem lubrificado de Relações Públicas republicano acusou os democratas de serem um partido de interesses especiais: das mulheres, dos trabalhadores, dos velhos, dos jovens, dos agricultores, enfim, da população em geral. Havia apenas um segmento da população nunca relacionado como de interesse especial: o das empresas e negócios em geral. isso faz sentido. No discurso do politicamente correcto, o interesse especial deles são os interesses nacionais, o qual todos devem reverenciar. Os democratas protestaram, respondendo que eles não eram um partido de interesses especiais: eles serviam também os interesses nacionais. O que estava correcto, mas o problema deles tem sido a falta da clara consciência de classe dos seus oponentes republicanos. Estes últimos não estão confusos acerca do papel de representantes dos donos e administradores da sociedade, os quais travam uma amarga luta de classe contra a população em geral – frequentemente adoptando conceitos de uma retórica marxista vulgar valendo-se da histeria chauvinista, do medo e pavor a grandes líderes e de outros mecanismos padronizados de controle da população. Os democratas são menos claros acerca das suas lealdades, logo menos eficazes na guerra de propaganda. Finalmente, vejamos o termo conservador, que se refere aos defensores de um Estado poderoso, que interfira enormemente na economia e na vida social. Eles defendem vultosos gastos estatais, máximas medidas proteccionistas pós-guerra e seguros contra o mercado de risco, restringindo liberdades individuais, por intermédio da legislação e dos tribunais conservadores, protegendo assim o Santo Estado da injustificável inspecção de uma reles cidadania. Em resumo, esses programas são justamente o oposto do tradicional conservadorismo. A sua lealdade é para com “aqueles que são os donos da nação” e, portanto, “devem governá-la”, segundo as palavras do patriarca fundador John Jay. Na verdade, isso não é difícil de compreender, uma vez entendidas as regras do jogo. Para o discurso político fazer sentido, é necessário fazer uma contínua tradução para o inglês, descodificando o duplo sentido da comunicação social, dos cientistas sociais académicos e do sacerdócio secular em geral. A sua função não é obscurecer: o seu objectivo é tornar impossível achar palavras que falem sobre problemas de real significado humano, de forma coerente. Então podemos estar seguros que pouco será compreendido sobre como funciona a nossa sociedade e sobre o que está a passar-se no mundo – uma grande contribuição para a democracia, no sentido politicamente correcto da palavra.

15 de janeiro de 2009

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XIX. Por Noam Chomsky.

A guerra contra (certas) drogas.


Um dos substitutos do extinto Império do Mal (União Soviética e Bloco de Leste) tem sido a ameaça representada pelos traficantes de drogas da América Latina. No início de Setembro de 1989, uma enorme campanha governo – comunicação social foi lançada pelo presidente dos EUA. Naquele mês, os telegramas da AP transmitiram mais histórias sobre drogas do que sobre a América Latina, a Ásia, o Médio Oriente e a África juntos. Se alguém assistisse à televisão, perceberia que em todos os programas de notícias havia uma grande parte mostrando como as drogas estavam a destruir a nossa sociedade e tornando-se uma grande ameaça à nossa existência, etc. O efeito na opinião pública foi imediato. Quando Bush ganhou a eleição presidencial, em 1988, o povo dizia que o déficit do orçamento era o maior problema enfrentado pelo país. Apenas 3% apontou as drogas. Depois do bombardeio pela comunicação social, as preocupações com o orçamento diminuíram, ao mesmo tempo que aumentaram em relação às drogas, em torno de 40% a 45%, o que é muito raro para uma pergunta aberta (onde não são sugeridas respostas específicas). Actualmente, quando algum país aliado reclama que os EUA não estão a enviar suficiente ajuda financeira, já não diz “necessitamos dela para conter os russos”, e sim, “necessitamos dela para reprimir o tráfico de drogas”. Assim como a ameaça soviética, tais inimigos fornecem uma boa desculpa para a presença militar americana onde haja actividade rebelde ou outros distúrbios. Assim, internacionalmente, “a guerra às drogas” fornece um pretexto para intervenções.

Internamente, tem pouco a ver com as drogas, mas muito a ver com a distração da população, aumentando a repressão nos centros urbanos e apoiando o ataque às liberdades civis. Não se trata de dizer que o “abuso de substâncias químicas”’ não seja um problema sério. Na época em que foi lançada a guerra contra as drogas, as mortes por tabaco foram estimadas em cerca de trezentas mil ao ano, e talvez outras cem mil por álcool. Entretanto, essas não eram as drogas que o governo Bush perseguia. Seu alvo foram as drogas ilegais, que haviam causado muito menos mortes – acima de 3.500 ao ano –, de acordo com as estimativas oficiais. Um dos motivos dessa perseguição às drogas era porque o consumo destas esteve diminuindo por alguns anos. Assim, o governo Bush poderia prever seguramente que sua guerra às drogas seria bem sucedida na diminuição do consumo de drogas. O governo Bush perseguiu também a marijuana, que não havia causado nenhuma morte conhecida entre os seus sessenta milhões de utilizadores diários. Na verdade, o ataque exacerbou o problema das drogas, já que muitos utilizadores da marijuana passaram desta droga, praticamente inofensiva, para outras mais perigosas como a cocaína, que é mais fácil de ocultar. Assim que a guerra contra as drogas foi lançada com grande estardalhaço, em setembro de 1989, o Conselho de Representantes do Comércio dos EUA (USTR) conseguiu uma audiência em Washington a fim de discutir a proposta das indústrias de tabaco de impor sanções à Tailândia, em retaliação aos esforços desse país em restringir a propaganda e as importações de tabaco americano. Tais acções do governo americano já tinham forçado ao vício, desse narcótico letal, as gargantas de consumidores no Japão, na Coréia do Sul e em Taiwan, com todo tipo de custos humanos já mencionados. O chefe da Saúde Pública dos Estados Unidos, Everett Koop, declarou perante o conselho do USTR que “quando imploramos aos governos estrangeiros para acabarem com o fluxo de cocaína, é o cúmulo da hipocrisia os EUA exportarem tabaco”. E acrescentou, “daqui a alguns anos, o nosso país vai olhar para trás e achar escandalosa a aplicação dessa política de livre comércio”.
Testemunhas tailandesas também protestaram, prevendo que as consequências das sanções americanas reverteriam a diminuição do uso do cigarro, obtida pela campanha do governo contra o tabaco. Em resposta à alegação das companhias americanas que o seu tabaco era o melhor do mundo, uma testemunha tailandesa respondeu que “certamente nós também temos, no Triângulo do Ouro, alguns dos melhores produtos do mundo, mas nunca solicitamos que o princípio de livre comércio imperasse sobre tais produtos. Na verdade, nós os reprimimos”. Os críticos recordaram a Guerra do Ópio ocorrida há 150 anos, quando o governo britânico forçou a China a abrir suas portas ao ópio da Índia britânica, defendendo hipocritamente as virtudes do livre comércio, enquanto impunham forçosamente o vício da droga, em larga escala, na China. Aqui temos o maior caso de drogas da actualidade. Imagine a estridente manchete: “Governo dos Estados Unidos é líder mundial em venda de drogas”. Isso certamente venderia jornais. Entretanto, a história passou virtualmente despercebida aqui, sem o menor indício das óbvias conclusões. Outro aspecto do problema das drogas que também recebeu pouca atenção foi o importante papel que os EUA desempenharam no estímulo ao tráfico de drogas, desde a Segunda Guerra Mundial. Isso aconteceu, em parte, quando os EUA começaram a tarefa pós-guerra de minar a resistência anti-fascista, tornando o movimento sindical um importante alvo. Em França, a ameaça de poder político e a influência do movimento sindical aumentaram quando foram tomadas medidas para impedir o fluxo de armas às forças francesas, que buscavam reconquistar a sua antiga colónia do Vietname, com o apoio dos EUA. A CIA, então, decidiu enfraquecer e dividir o movimento trabalhista francês, com a ajuda dos principais líderes sindicais norte-americanos, que ficaram muito orgulhosos do seu papel. A tarefa exigia fura-greves e provocadores. Havia uma óbvia fornecedora: a Máfia. Naturalmente, a Máfia não aceitou o serviço apenas por diversão. Ela queria uma recompensa pelos seus esforços. E essa foi-lhe dada: a Máfia foi autorizada a restabelecer o comércio de heroína, que havia sido suprimido pelos governos fascistas – a famosa “conexão francesa” – que dominou o comércio de drogas até os anos 1960. Nesse período, o centro de comércio de drogas havia sido transferido para a Indochina, especialmente para o Laos e para a Tailândia. A transferência foi novamente um subproduto da operação da CIA – a “guerra secreta” travada naqueles países, durante a Guerra do Vietname, por um exército mercenário da CIA. Os participantes também queriam um pagamento poelas suas contribuições. Mais tarde, a CIA transferiu as suas atividades para o Paquistão e para o Afeganistão, onde o comércio de tráfico de drogas floresceu. A guerra clandestina contra a Nicarágua também deu uma injecção de energia nos braços dos traficantes de drogas da região, assim que os vôos ilegais da CIA, com armas para as forças mercenárias americanas, ofereceram uma forma tranquila de transportar drogas de volta para os EUA, algumas vezes por intermédio até de bases da Força Aérea dos Estados Unidos, como informam os traficantes. A estreita correlação entre o comércio de drogas e o terrorismo internacional(algumas vezes chamada de “contra-insurgência”, “conflito de baixa intensidade” ou algum outro eufemismo) não é nenhuma surpresa. As operações clandestinas necessitam de muito dinheiro, que deve ser lavado. E elas (as operações) precisam de criminosos eficientes. E por aí vai.

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XVIII. Por Noam Chomsky.

Como funcionava a Guerra Fria.

Apesar de muita pretensão, a segurança nacional foi a principal preocupação dos estrategas americanos e das autoridades eleitas. Os dados históricos revelam isso claramente. Poucos analistas sérios questionaram a posição de George Kennan de que "não é a força militar russa que nos está a ameaçar, e sim a força política russa" (outubro de 1947); ou a opinião consistente do presidente Eisenhower de que os russos não pretendiam a conquista militar da Europa Ocidental e que o papel mais importante da NATO era "transmitir confiança às populações desprotegidas, confiança essa que as tornariam politicamente inflexíveis em oposição às infiltrações comunistas”. Mesmo assim, os EUA descartaram a possibilidade de uma solução pacífica para o conflito da Guerra Fria, que teria deixado a "ameaça política" intacta. Na sua história sobre as armas nucleares, McGeorge Bundy escreve que ele não estava "ciente de nenhuma proposta contemporânea séria... que os mísseis balísticos seriam de alguma forma proibidos, por um acordo, antes de eles já estarem instalados", muito embora eles fossem a única ameaça militar concreta aos Estados Unidos. Sempre foi a ameaça “política” do chamado
comunismo a principal preocupação. Lembre-se “comunismo” é um termo amplo e inclui todos aqueles com “habilidade de controlar os movimentos de massa... coisa que não temos a capacidade de realizar”, como o secretário de Estado John Foster Dules admitiu secretamente ao seu irmão Allen, diretor da CIA. “Os pobres são os que eles mais atraem, ele acrescentou, “e estes sempre quiseram saquear os ricos”. Então, eles devem ser vencidos para proteger a nossa doutrina de que os ricos devem saquear os pobres.

Naturalmente, tanto os EUA quanto a Rússia preferiam que o outro lado desaparecesse, mas visto que isso implicaria obviamente uma eliminação mútua, então um sistema de gestão global,
chamado Guerra Fria, foi estabelecido. De acordo com a opinião convencional, a Guerra Fria foi um conflito entre duas super-potências, causado pela agressão soviética, na qual tentávamos conter a União Soviética e proteger o mundo dela. Se esse ponto de vista é uma doutrina teológica, não há necessidade de discuti-la. Entretanto, se se pretende lançar alguma luz sobre essa história, poderíamos facilmente testá-la, tendo em mente um ponto muito simples: se quisermos entender a Guerra Fria, devemos observar os acontecimentos da Guerra Fria. Se assim fizermos, um quadro bens diferente surgirá. No lado soviético, os acontecimentos da Guerra Fria foram repetidas intervenções na Europa Oriental: tanques em Berlim Oriental, Budapeste e Praga. Essas intervenções foram realizadas ao longo da mesma rota que serviu para atacar, e praticamente destruir, a Rússia por três vezes, só neste século. A invasão do Afeganistão é o único exemplo de uma intervenção fora de rota, embora também na fronteira soviética. No lado americano, as intervenções eram no mundo inteiro, reflectindo o status alcançado pelos EUA, como a primeira potência verdadeiramente global da história.
Internamente, a Guerra Fria ajudou a União Soviética a entrincheirar no poder uma classe dirigente militar-burocrática e deu aos Estados Unidos um motivo para obrigar a sua população a subvencionar a indústria de alta tecnologia. Não é fácil vender tudo isso às populações internas. A técnica utilizada era o antigo álibi – medo ao grande inimigo. A Guerra Fria previa isso também. Não importava o quão bizarra fosse a ideia de que a União Soviética, com os seus tentáculos, estava a estrangular o Ocidente, o “Império do Mal” era de facto mal, era um império e era brutal. Cada superpotência controlava o seu inimigo principal – a sua própria população – aterrorizando-a com os crimes (absolutamente reais) do outro. Numa avaliação crítica, portanto, a Guerra Fria foi uma espécie de acordo tácito entre a União Soviética e os Estados Unidos, sob o qual os EUA conduziram as suas guerras contra o Terceiro Mundo e controlaram os seus aliados na Europa, enquanto os governantes soviéticos mantiveram com garras de aço o seu próprio império interno e os seus satélites na Europa Oriental – cada lado utilizando o outro para justificar a repressão e a violência no seu própria domínio.

Então, por que é que a Guerra Fria terminou e como o seu fim alterou as coisas? Na década de 1970, os gastos militares soviéticos estavam a extrapolar os limites, e os problemas internos estavam a aumentar com a estagnação económica e as crescentes pressões pelo fim do regime tirânico. A potência soviética estava, de facto, declinando internacionalmente há uns trinta anos, como um estudo do Centro de Informação de Defesa mostrou, em 1980. Poucos anos depois, o sistema soviético desmoronaria. A Guerra Fria terminou com a vitória daquele que sempre tinha sido, de longe, o mais rico e mais poderoso concorrente. 0 colapso soviético fez parte de uma catástrofe económica geral nos anos 1980, que foi mais dura na maior parte dos domínios do Ocidente no Terceiro Mundo do que no Império Soviético. Como já vimos, a Guerra Fria teve elementos importantes no conflito Norte – Sul (para usar o eufemismo contemporâneo em relação à conquista europeia do mundo). A maior parte do Império Soviético tinha sido constituída por antigas dependências, quase coloniais, do Ocidente. A União Soviética tomou um caminho independente, fornecendo assistência para os alvos de ataque do Ocidente e evitando uma violência ocidental ainda pior. Com o colapso da tirania soviética, e de se esperar que grande parte da região retorne ao seu tradicional status, com os mais altos escalões da antiga burocracia desempenhando o papel das elites do Terceiro Mundo que se enriquecem servindo os interesses dos investidores estrangeiros. Entretanto, se esta fase singular terminou, os conflitos Norte – Sul continuam. Um dos lados pode ter-se retirado parcialmente do jogo, mas os EUA procedem como antes – na realidade mais livremente – com o obstáculo soviético sendo uma coisa do passado. Não deve ter surpreendido ninguém que George Bush comemorasse o fim simbólico da Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim, invadindo imediatamente o Panamá e anunciando aos quatro ventos que os EUA subverteriam a eleição na Nicarágua, mantendo o estrangulamento económico e o ataque militar, a menos que o “nosso lado” ganhasse. Nem foi necessário grande raciocínio para Elliot Abrams observar que a invasão do Panamá pelos Estados Unidos era incomum, porque pôde ser conduzida sem o receio de uma reacção soviética em qualquer parte do mundo, ou para os inúmeros comentaristas, durante a crise do Golfo, acrescentarem que agora os EUA e a Inglaterra estavam livres para usar uma força ilimitada contra
os seus inimigos do Terceiro Mundo, já que não estavam inibidos pelo obstáculo soviético. Logicamente, o fim da Guerra Fria traz também problemas. Notoriamente, a técnica de controlo da população interna sofreu uma alteração, um problema, como já vimos, identificado nos anos 1980. Novos inimigos têm de ser inventados. Torna-se cada vez mais difícil esconder que “os pobres que procuram despojar os ricos” têm sido sempre o verdadeiro inimigo – em particular os "hereges" do Terceiro Mundo, que buscam escapar do papel de súbditos.

8 de janeiro de 2009

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XVII. Por Noam Chomsky.

O mercenário do mundo.


Na maior parte deste século os Estados Unidos foram, de longe, a potência económica dominante no mundo, que fez da guerra económica uma arma atraente, incluindo as medidas que variam do embargo ilegal às imposições das regras do FMI (para os fracos e descapitalizados). Mas, nos últimos vinte anos, mais ou menos, os Estados Unidos têm estado em declínio em relação ao Japão e à Europa encabeçada pela Alemanha (graças, em parte, à má gestão do governo Reagan, que deu uma festa aos ricos com custos pagos pela maioria da população e das gerações futuras). Ao mesmo tempo, no entanto, o poder militar norte-americano tornou-se absolutamente preponderante no mundo. Enquanto a União Soviética esteve no jogo, havia um limite para a força que os Estados Unidos poderiam aplicar, particularmente nas áreas mais remotas, onde não tínhamos a vantagem de uma grande força convencional. Como a URSS costumava apoiar governos e movimentos políticos que os EUA tentavam destruir, havia o perigo de que a intervenção norte-americana no Terceiro Mundo pudesse incentivar numa guerra nuclear. Com o obstáculo soviético desfeito, os EUA estão muito mais livres para usar a violência pelo mundo fora, facto este reconhecido com muita satisfação pelos analistas políticos norte-americanos, há vários anos. Em qualquer confrontação, cada participante tenta deslocar a batalha para o terreno em que tenha maior probabilidade de sucesso. Se se quer liderar com energia, tem de se jogar forte. A jogada de peso dos Estados Unidos é a força, então, se pudermos estabelecer o princípio de que a força comanda o mundo, isso será uma vitória para nós. Se, por outro lado, um conflito for resolvido por meios pacíficos, isso beneficiar-nos-á menos, porque os nossos rivais são tão bons ou até melhores que nós nesse terreno. A diplomacia é particularmente uma opção indesejável, a menos que seja exercida sob a mira da espingarda. Os Estados Unidos têm muito pouco apoio popular para as suas metas no Terceiro Mundo. Isso não é surpresa, tendo em vista que os EUA vêm tentando impor estruturas de dominação e de exploração. Um acordo diplomático tem o dever de responder, pelo menos em certo grau, aos interesses dos outros participantes na negociação, e isso é um problema quando as suas posições não são muito populares. Em consequência, as negociações são algo que os EUA comummente tentam evitar. Ao contrário da imensa propaganda, há muitos anos que essa tem sido a verdade no Sudeste Asiático, no Médio Oriente e na América Central. Diante de tal quadro, é natural que o governo Bush considerasse a força militar como principal instrumento político, preferindo-a às sanções e à diplomacia (como na crise do Golfo). Visto que actualmente os Estados Unidos necessitam de base económica para impor "ordem e estabilidade" no Terceiro Mundo, é necessário contar com outros que financiem tais actividades - alguém é necessário, como é amplamente reconhecido, desde que seja alguém que assegure o devido respeito aos mestres. O fluxo de lucros da produção petrolífera do Golfo ajuda. Mas o Japão e a Europa continental, liderada pela Alemanha, devem pagar a sua parte assim que os Estados Unidos assumirem o seu "papel de mercenário", seguindo o conselho da imprensa de empresas internacionais.

O editor financeiro do conservador "Chicago Tribune" vem enfatizando esses temas com uma clareza singular. Nós devemos ser "mercenários bem dispostos", pagos pelos nossos rivais pelos nossos amplos serviços prestados, usando o nosso "monopólio de poder" no "mercado de segurança" para manter " o nosso controle sobre o sistema económico mundial". Deveríamos administrar um plano de protecção global, aconselha ele, vendendo "protecção" para outras potências ricas, que nos pagariam uma "recompensa de guerra". Isto é Chicago, onde as palavras são assim entendidas: se alguém o incomodar, você pode chamar a Máfia para lhe partir os ossos. Mas se você se atrasar na recompensa, a sua saúde também pode sofrer danos. Para ser exacto, o uso da força para controlar o Terceiro Mundo é somente o último recurso. O FMI é um instrumento mais barato do que os Marines e a CIA. Mas o "punho-de-ferro" deve estar nos bastidores, disponível quando necessário. O nosso papel de mercenários também causa sofrimento interno. Todas as potências industriais bem-sucedidas sempre contaram com o Estado para protegê-las e ampliar os seus já poderosos interesses económicos internos, direccionando os recursos públicos para as necessidades dos investidores, e assim por diante - este é um motivo pelo qual eles são bem-sucedidos. Desde 1950, os EUA têm, em geral, seguido essas metas por intermédio do sistema do Pentágono (inclusive a NASA e o Departamento de Energia, que produzem armas nucleares). Actualmente, estamos atados a esses instrumentos para manter as indústrias electrónicas, a indústria de computadores e a indústria de tecnologia de ponta, em geral. Os excessos keynesianos dos militares fiéis aReagan aumentaram ainda mais os problemas. A transferência de recursos para a minoria rica e outras políticas governamentais levaram a uma vasta onda de manipulação financeira e a um frenesim de consumo. Contudo, houve pouco investimento na área produtiva e o país ficou sobrecarregado com enormes dívidas: governamentais, empresariais, de manutenção interna e a incalculável dívida social, cujas necessidades levam a sociedade a aproximar-se do padrão do Terceiro Mundo, com ilhas de grande riqueza e privilégio num mar de miséria e sofrimento. Quando o Estado está comprometido com tais políticas, deve de alguma forma buscar uma maneira de distrair a população, para impedi-la de ver o que está a acontecer ao seu redor. Não há muitas maneiras de fazer isso. As mais comuns são inspirar medo a inimigos terríveis que estão prestes a subjugar-nos e reverenciar os nossos grandes líderes, que nos salvam a tempo do desastre.

Esse foi o exemplo seguido ao longo dos anos 1980, exigindo não pouca ingenuidade assimilá-lo, assim que o esquema padrão, a ameaça soviética, se tornou difícil de ser levado a sério. Assim, a ameaça à nossa existência tem sido Kadafi e o seu bando de terroristas internacionais; Granada a e sua ameaçadora base aérea; sandinistas marchando para o Texas; narco-traficantes espanhóis liderados pelo arquimaníaco Noriega; e árabes malucos, em geral. Mais recentemente foi Sadam Hussein, depois de praticar um único crime - o crime de desobediência - em agosto de 1990. Tornou-se mais que necessário reconhecer o que sempre foi evidente: o principal inimigo é o Terceiro Mundo, que ameaça sair "fora do controlo". Essas não são as leis da natureza. Os processos e as instituições que as engendram podem ser mudados. Mas isso exigiria profundas mudanças culturais, sociais e institucionais que não aconteceriam a curto prazo, inclusive mudanças nas estruturas democráticas, que vão além da selecção periódica de representantes do mundo empresarial para dirigir os negócios nacionais e internacionais.

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XVI. Por Noam Chomsky.

As perspectivas para a Europa Oriental.


O que foi notável nos acontecimentos do Leste Europeu, nos anos 1980, foi que a potência imperial simplesmente voltou atrás. A União Soviética não só permitiu como encorajou os movimentos populares. Há poucos precedentes históricos iguais a estes. Isso não aconteceu porque os soviéticos eram bons da fita. Eles foram obrigados por necessidades internas. Mas aconteceu e, como resultado, os movimentos populares no Leste Europeu não tiveram de enfrentar, nem remotamente, o que eles enfrentariam se ocorressem na nossa área. O jornal dos jesuítas salvadorenhos concluiu acertadamente que, no seu país, Vaclav Havel (o antigo prisioneiro que se tornou presidente da Tchecoslováquia) não teria sido levado para a cadeia, mas cortado em pedaços e deixado em qualquer lugar à beira da estrada. A União Soviética até pediu desculpas pelo uso da violência no passado e este também é um facto sem precedentes. Entretanto, os jornais norte-americanos concluíram que, devido aos russos terem admitido que a invasão do Afeganistão foi um crime que violou a Lei Internacional, eles agora estavam finalmente a unir-se ao mundo civilizado. Essa é uma reacção interessante. Imagine alguém da comunicação social norte-americana sugerir que talvez os EUA devessem tentar elevar-se ao nível do Kremlin, admitindo que os ataques contra o Vietname, o Laos, o Camboja e o Iraque também violaram a Lei Internacional! O único país onde houve extrema violência, entre as tiranias derrubadas na Europa Oriental, foi justamente aquele em que os soviéticos tinham menor e os americanos maior influência: a Roménia. Nicolau Ceausescu, o ditador da Roménia, tinha visitado a Inglaterra, onde lhe foi dado tratamento real, e os Estados Unidos renderam-lhe tratamento de representante de nação favorecida, com vantagens comerciais e outras coisas semelhantes. Ceausescu era tão louco e brutal antes quanto depois, mas como se havia visivelmente retirado do Pacto de Varsóvia e estava a seguir um caminho um tanto independente, achamos que ele estava só parcialmente do nosso lado na luta internacional. Nós somos a favor da independência desde que ela seja estabelecida no império de outros povos, nunca no nosso império.

Nas outras partes da Europa, os levantes foram notadamente pacíficos. Houve alguma repressão, mas historicamente 1989 foi singular. Não consigo pensar em outro caso que se aproxime deste. Acho que as perspectivas para a Europa Oriental são bastante obscuras. O Ocidente tem um plano para ela: ele quer transformar grande parte dela numa nova e facilmente explorável parte do Terceiro Mundo. Sempre houve uma espécie de relacionamento colonizador entre a Europa Ocidental e a Europa Oriental. De facto, o bloqueio desse relacionamento pelos russos foi um dos motivos da Guerra Fria. Agora, esse relacionamento está a ser restabelecido e há sérios conflitos sobre quem irá ganhar a corrida ao roubo e à exploração. Será a Europa Ocidental liderada pela Alemanha (actualmente na frente), será o Japão (esperando em cima do muro para ver de onde aparecem os melhores lucros) ou serão os Estados Unidos (tentando entrar em ação)? Há muitos recursos para serem explorados e muita mão-de-obra barata para a linha de produção. Mas antes temos de impor-lhes o modelo capitalista. Nós não o aceitamos para nós mesmos - mas para o Terceiro Mundo, nós insistimos nesse modelo. Este é o sistema do FMI. Se conseguirmos que o adoptem, eles serão facilmente exploráveis e desempenharão o seu novo papel da mesma forma que o Brasil e o México. Em muitos sentidos, a Europa Oriental é mais atraente para os investidores do que a América Latina. Uma dessas razões é que a sua população é branca e de olhos azuis, logo com maior facilidade de negociar com os investidores, que vêm de sociedades profundamente racistas como a da Europa Ocidental e a dos Estados Unidos. O mais importante ainda é que a Europa Oriental tem, em geral, saúde e padrões educativos muito mais elevados que os da América Latina que, salvo certos sectores isolados de riqueza e privilégio, é uma área de desastre total. Uma das poucas excepções a esse respeito é Cuba, que se aproxima mais dos padrões ocidentais de alfabetização e saúde, embora as suas perspectivas sejam sombrias.
Uma razão para essa disparidade entre a América Latina e a Europa Oriental é o nível demasiadamente maior de terror estatal nos anos posteriores a Stalin. Um segundo motivo é a política económica. De acordo com a Inteligência Americana, a União Soviética injectou cerca de 80 bilhões de dólares na Europa Oriental, nos anos 1970. A situação foi bem diferente na América Latina. Entre 1982 e 1987, cerca de 150 bilhões de dólares foram transferidos da América Latina para o Ocidente. O "The New York Times" cita estimativas em "transações escusas" que poderiam alcançar 700 bilhões de dólares (incluindo dinheiro de drogas, lucros ilegais, etc.). Os efeitos na América Central têm sido particularmente devastadores, mas o mesmo ocorre em toda a América Latina, onde há uma pobreza generalizada, desnutrição, mortalidade infantil, destruição ambiental, terror estatal e um colapso no padrão de vida aos níveis de décadas passadas. A situação em África é ainda pior. A catástrofe do capitalismo foi particularmente grave nos anos 1980, um "implacável pesadelo" sob o domínio das potências ocidentais, isso nos exactos termos do chefe da Organização da Unidade Africana. Folhetos explicativos, fornecidos pela Organização Mundial de Saúde, estimam que 11 milhões de crianças morrem a cada ano no "mundo em desenvolvimento", "um genocídio silencioso" que poderia terminar rapidamente se os recursos fossem dirigidos para as necessidades humanas ao invés de serem dirigidos para o enriquecimento de uns poucos. Numa economia global planeada para os interesses e as necessidades económicas das corporações e para as finanças internacionais, além dos sectores que as servem, a maioria dos seres vivos tornam-se supérfluos. Eles serão colocados de lado se as estruturas institucionais de poder e de
privilégio funcionarem sem o desafio ou o controle popular.

29 de dezembro de 2008

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XV. Por Noam Chomsky.

A cobertura Irão-Contras.

Os principais elementos da história do caso Irão-Contras eram conhecidos bem antes de serem expostos em 1986, com excepção de um facto: que a venda de armas para o Irão, via Israel, e a guerra ilegal dos Contras, dirigida do escritório de Ollie North, na Casa Branca, estavam relacionadas. A remessa de armas ao Irão, via Israel, não começou em 1985, quando um inquérito Congresso e um procurador especial começaram a investigar a história. Isso começou quase que imediatamente após a queda do xá do Irão, em 1979. Já em 1982, era do conhecimento público que Israel estava a fornecer grande parte das armas ao Irão - conforme se podia ler nas primeiras páginas do "The New York Times". Em fevereiro de 1982, as principais figuras de Israel, cujos nomes só apareceriam mais tarde na rede de televisão da BBC, descreveram como haviam ajudado a organizar o fluxo de armas para o regime de Khomeini. Em outubro de 1982, o embaixador israelita nos EUA declarou publicamente que Israel enviava armas para o regime de Khomeini "com a cooperação dos Estados
Unidos... quase ao mais alto nível". Os altos oficiais israelitas envolvidos também deram a sua versão: estabelecer laços com elementos das forças armadas do Irão que pudessem derrubar o regime, restaurando os acordos que vigoravam durante o regime do xá - ou seja, procedimentos operacionais de rotina.

Quanto à guerra dos Contras, os factos elementares das operações ilegais Oliver North-CIA já eram conhecidos em 1985 (a história já tinha sido revelada há mais de um ano, quando um avião com abastecimentos foi abatido e o agente americano Eugene Hasenfus foi capturado). A comunicação social simplesmente preferiu olhar para o outro lado. O que gerou então o escândalo Irão-Contras? Chegou um momento em que se tomou impossível ocultá-lo por mais tempo. Quando o avião de Hasenfus foi abatido, na Nicarágua, levando armas para os Contras por intermédio da CIA, e a imprensa libanesa informou que o Conselho de Segurança Nacional dos EUA estava a distribuir bíblias e bolos de chocolate em Teerão, a história deixou de poder ser mantida oculta. Depois disso, emergiu a conexão entre essas duas histórias bem conhecidas. Passamos então para a fase seguinte: o controlo do prejuízo. Foi nisso que se baseou o prosseguimento do caso.

26 de dezembro de 2008

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XIV. Por Noam Chomsky.

A Guerra do Golfo.

A Guerra do Golfo ilustrou bem o guia de princípios pelos quais se regem os Estados Unidos, como poderemos ver claramente, se levantarmos o véu da propaganda. Quando o Iraque invadiu o Kuwait, em agosto de 1990, o Conselho de Segurança da ONU imediatamente condenou o Iraque e lhe impôs severas sanções. Por que razão reagiu a ONU tão prontamente e com uma firmeza tão sem precedentes? A aliança entre a comunicação social e o governo norte-americano tinha uma resposta padrão. Primeiro, disseram-nos que a agressão iraquiana era um crime singular e, portanto, merecia uma reacção singularmente dura. "A América está onde sempre esteve - contra a agressão, contra todos aqueles que usam da força para substituir o império da lei" - assim fomos informados pelo presidente Bush - o invasor do Panamá e único chefe de Estado condenado pela Corte Internacional pelo uso ilegal da força (a condenação da Corte deveu-se ao ataque norte-americano contra a Nicarágua). A comunicação social e as classes instruídas repetiram obedientemente a lição ditada pelo seu líder, curvando-se em reverência à grandiosidade dos seus "altos princípios". Segundo, essas mesmas autoridades declararam, em coro, que finalmente a ONU estava agora a funcionar como fora planeada. Eles argumentavam que isso era impossível de acontecer antes do fim da Guerra Fria, quando a ONU se tornou ineficiente graças à dissidência da União Soviética e à estridente retórica anti-ocidental do Terceiro Mundo. Nenhum desses argumentos resistem, mesmo por um instante, a um exame mais minucioso. Nem os EUA e nem os demais países aliados estavam a sustentar algum alto princípio que fosse no Golfo. O motivo dessa resposta sem precedentes a Sadam Hussein não foi a sua brutal agressão, mas sim por ele ter pisado em falso.

Sadam Hussein é um gangster assassino exactamente como era antes da Guerra do Golfo, quando ele era nosso amigo e sócio comercial favorito. A sua invasão ao Kuwait foi certamente uma atrocidade, porém dentro dos padrões de outros crimes praticados pelos Estados Unidos e seus aliados, e nunca tão terrível quanto as que ocorreram em outras regiões. Por exemplo, a invasão da Indonésia e a anexação de Timor Oriental, que alcançaram proporções próximas às de um genocídio, devido aodecisivo apoio dos EUA e de seus aliados. Talvez um quarto dos setecentos mil habitantes tenham sido mortos, uma carnificina superior à ocorrida em Pol Pot, em relação à população, naquele mesmo período. O nosso embaixador na ONU naquela época (hoje senador por Nova York), Daniel Moynihan, assim explicou a sua façanha na ONU em relação a Timor Oriental: "Os EUA queriam que as coisas ocorressem justamente da forma como ocorreram, e trabalharam para isso. O Departamento de Estado desejava que a ONU comprovasse a sua total ineficácia em quaisquer medidas que fossem empreendidas por ela. Esta tarefa foi dada a mim, e eu cumpri-a com considerável sucesso”. O ministro das Relações Exteriores australiano justificou a aquiescência do seu país na invasão de Timor Oriental (e a participação com a Indonésia no roubo das ricas reservas de petróleo de Timor) dizendo simplesmente que "o mundo é um lugar muito injusto, repleto de exemplos de conquistas pela força". Quando o Iraque invadiu o Kuwait entretanto, o seu governo fez uma ressonante declaração, afirmando que "os países maiores não podiam invadir os menores e saírem ilesos".

Nenhum limite do cinismo perturba a equanimidade dos moralistas ocidentais. Quanto à ONU estar finalmente funcionar como fora planeada, os factos são claros - mas absolutamente obscurecidos pelos guardiães da correção política, que controlam com mão-de-ferro os meios de expressão. Por muitos anos, a ONU tem sido bloqueada pelas grandes potências, primeiramente pelos EUA - não pela União Soviética ou pelo Terceiro Mundo. Desde 1970, os Estados Unidos têm vetado muito mais resoluções no Conselho de Segurança do que as outras nações (a Inglaterra em segundo lugar, a França em terceiro e a URSS em quarto). A nossa história na Assembleia Geral é semelhante. E a "retórica estridente antiocidental" do Terceiro Mundo resulta geralmente numa chamada para acatar a lei internacional, uma barreira lamentavelmente frágil contra a pilhagem dos poderosos. A ONU foi capaz de responder à agressão iraquiana porque, pela primeira vez, os Estados Unidos permitiram que isso acontecesse. A severidade sem precedentes das sanções da ONU foi resultado de intensas ameaças e pressões dos Estados Unidos. As sanções tiveram uma oportunidade rara e boa de funcionar, não só por causa de sua dureza como também porque os habituais violadores de sanções - EUA, Inglaterra e França - as acataram, por mais estranho que pareça. Mas, mesmo depois de permitir as sanções, os Estados Unidos imediatamente bloquearam a saída diplomática ao despachar uma enorme força militar para o Golfo, à qual a Inglaterra se uniu, apoiada pelas ditaduras das famílias que governam os países petrolíferos no Golfo, com a participação apenas nominal dos outros países. Uma força menor de dissuasão seria suficiente para que as sanções tivessem um efeito significativo, o que um exército de meio milhão de soldados não poderia conseguir. O propósito da rápida concentração militar era eliminar o perigo de o Iraque sair de modo pacífico do Kuwait.

Por que uma solução diplomática era tão pouco atraente? Poucas semanas após a invasão do Kuwait, no dia 2 de agosto, as linhas básicas de um possível acordo político estavam tornar-se claras. A resolução 660 do Conselho de Segurança exigia a retirada imediata do Kuwait e também convocava negociações simultâneas para as questões de fronteira. Em meados de agosto, o Conselho de Segurança considerou uma proposta iraquiana de retirada do Kuwait naquele contexto. Parece que ali havia duas questões: primeiro, o acesso do Iraque ao Golfo, que teria implicado um arrendamento ou um outro controle sobre duas áreas pantanosas desabitadas, entregues ao Kuwait pela Inglaterra, na sua decisão imperial (que havia deixado o Iraque praticamente sem saída para o mar); segundo, a solução de uma disputa em torno de um campo de petróleo, que se estendia por duas milhas dentro do Kuwait, além de uma fronteira não estabelecida. Os EUA practicamente rejeitaram a proposta, ou quaisquer outras negociações. No dia 22 de agosto, sem revelar os factos acerca da iniciativa iraquiana (o que aparentemente era conhecido), o "The New York Times" informou que o governo Bush estava determinado a bloquear a "via diplomática" por temer que "a crise se difundisse" muito mais dessa maneira. (Os factos principais foram publicados uma semana mais tarde pelo diário "Newsday", de Long Island, mas a comunicação social, em geral, manteve silêncio sobre o assunto.) A última oferta antes do bombardeio, emitida pelos oficiais norte-americanos, a 2 de janeiro de 1991, exigia a total retirada iraquiana do Kuwait. Não havia nenhuma especificação sobre fronteiras, mas a oferta foi feita num contexto de acordos não específicos, "ligados" a outras questões: armas de destruição em massa na região e o conflito árabe-israelita. As últimas questões incluíam a ocupação ilegal do Sul do Líbano por Israel, em violação à resolução 425 do Conselho de Segurança, de março de 1978, que exigia a retirada imediata e incondicional do território invadido. A resposta dos Estados Unidos foi a de que não haveria diplomacia. A comunicação social, com exceção do "Newsday", omitiu os factos enquanto louvava os altos princípios de Bush. Os EUA recusaram-se a considerar as questões "articuladas" porque se opunham à diplomacia em todas essas questões. Isso ficou claro meses antes da invasão do Kuwait pelo Iraque, quando os EUA rejeitaram a oferta iraquiana de negociação sobre armas de destruição em massa. Na oferta, o Iraque propunha a destruição total tanto das armas químicas quanto das biológicas, se outros países da região também dessem fim às suas armas de destruição em massa. Sadam Hussein era, então, amigo e aliado de Bush, e, sendo assim, recebeu uma resposta significativa. Washington disse que acolheria bem a proposta iraquiana de destruir as suas próprias armas, mas não queria que isso ficasse ligado a outras " questões ou sistemas de armas”. Não houve menção sobre "os outros sistemas de armas". E havia uma razão para isso. Israel não só tem armas químicas e biológicas como também é o único país no Oriente Médio que possui armas nucleares (provavelmente cerca de duzentas). Mas "armas nucleares israelitas" é uma expressão que não pode ser escrita ou pronunciada por nenhuma fonte oficial do governo norte-americano. Essa expressão suscitaria perguntas sobre a ajuda ilegal a Israel, já que a legislação sobre ajuda estrangeira proíbe, desde 1977, o envio de recursos a qualquer país que desenvolva armas nucleares secretamente.

Independentemente da invasão do Iraque, os EUA têm bloqueado sempre todo e qualquer processo de paz no Médio Oriente, incluindo uma conferência internacional sobre o reconhecimento do direito dos palestinos à sua autodeterminação. Por vinte anos, os EUA têm sido praticamente os únicos a manter essa posição. Os votos na ONU mostram o seu padrão regular anual. Mais uma vez, em dezembro de 1990, bem no meio da crise do Golfo, a chamada para uma conferência internacional recebeu 144 votos a favor e dois contra (EUA e Israel). Isso nada teve a ver com o Iraque e o Kuwait. Os EUA também se recusaram inflexivelmente a permitir uma reversão da agressão iraquiana por meios pacíficos, como é prescrito pela Lei Internacional. Em vez disso, preferiram evitar a diplomacia e restringir o conflito à arena da violência, na qual é permitido a uma superpotência, não enfrentando qualquer oposição, prevalecer sobre um adversário do Terceiro Mundo. Como já foi exposto, os EUA executam ou apoiam regularmente a agressão, mesmo em casos muito mais criminosos do que a invasão do Kuwait pelo Iraque. Só o mais obtuso dos comissários teria dificuldade em entender esses factos, ou nos raros casos em que os EUA, quando se opõem a alguma acção ilegal de algum cliente ou aliado, ficam realmente muito felizes em actuar na articulação. Veja-se a ocupação da Namíbia pela África do Sul, declarada ilegal pela ONU, na década de 1960. Os EUA seguiram aí a "diplomacia silenciosa" e o "relacionamento construtivo" por anos, intermediando um acordo que deu à África do Sul ampla recompensa (inclusive o principal porto da Namíbia) por suas agressões e atrocidades, com a sua "articulação" estendendo-se para o Caribe, e os lucros bem-vindos para os interesses das empresas internacionais. As forças cubanas que haviam defendido Angola, vizinha da Namíbia, do ataque da África do Sul foram retiradas da região, mas os Estados Unidos, assim como no "acordo de paz" feito na Nicarágua em 1987, continuaram a fornecer o exército terrorista, apoiados pelos seus aliados (África do Sul e Zaire), preparando terreno para a "eleição democrática" estilo Nicarágua 1992, onde o povo foi para as urnas sob a ameaça de estrangulamento na economia e ataque terrorista se votasse da maneira errada. Enquanto isso, a África do Sul estava saqueando e destruindo a Namíbia, usando-a como uma base de ataque contra os seus países vizinhos. Somente entre os anos Bush e Reagan (1980-1988) a violência na África do Sul causou prejuízos em torno de 60 bilhões de dólares e a morte de mais de um milhão e meio de pessoas nos países vizinhos (excluindo a Namíbia e a África do Sul). Mas a classe dos comissários foi incapaz de ver esses factos e elogiou a admirável disposição dos altos
princípios de George Bush, quando ele se opôs a qualquer "articulação" - mas quando alguém pisa os nossos pés...

De modo geral, opor-se à "articulação significa um pouco mais do que rejeitar a diplomacia, que envolve sempre questões mais complexas. No caso do Kuwait, a posição dos Estados Unidos foi particularmente vaga. Depois de Sadam Hussein ter saído da linha, o governo Bush pressionou para que a capacidade de agressão iraquiana fosse eliminada (uma posição correcta, em contraste com a posição anterior de apoio às agressões e atrocidades de Sadam) e convocou um acordo regional para garantir a segurança na região. Bem, isso é articulação. O facto é que simplesmente os EUA temiam que a diplomacia pudesse "difundir a crise" e, portanto, bloquearam a "articulação" diplomática, durante todas as etapas da escalada da guerra. Ao recusar a diplomacia, os EUA conseguiram os seus objectivos fundamentais no Golfo. Nós estávamos preocupados com o facto de que os incomparáveis recursos de energia do Médio Oriente permanecessem sob o nosso controle e que os enormes lucros que eles produzem ajudassem a manter as economias dos EUA e do seu aliado britânico. Os Estados Unidos além disso reforçaram a sua posição dominante e ensinaram a lição de que o mundo é governado pela força. Com essas metas alcançadas, Washington continuou a manter a "estabilidade", barrando qualquer ameaça de mudança democrática nas tiranias do Golfo, dando tácito apoio a Sadam Hussein quando ele esmagou as revoltas populares dos xiitas, ao sul, a poucas milhas da linha americana, e depois a dos curdos, ao norte do país. Mas o governo Bush ainda não havia alcançado êxito naquilo que Thomas Friedman, seu porta voz e correspondente-chefe da diplomacia no "The New York Times", chama de "o melhor dos mundos: uma junta iraquiana de punho-de-ferro sem Sadam Hussein". "Isto", escreve Friedman, "seria voltar aos dias felizes em que o punho-de-ferro de Sadam... mantinha o Iraque unido, para satisfação dos aliados americanos, Turquia e Arábia Saudita", sem falar do chefe em Washington. A situação actual do Golfo reflecte as prioridades das superpotências que escondem as cartas, ou qualquer outra evidência que deve permanecer oculta para os guardiães da fé.