16 de janeiro de 2009

Toma lá que já almoçaste!

Assistimos neste início de ano ao agravamento da crise do sistema capitalista. Crise causada pela natureza do próprio sistema. Rapidamente os líderes mundiais, na sua maioria responsáveis pelo mesmo sistema, teceram grandes considerações sobre a Crise: uns entendem que esta foi causada pela ganância de alguns, outros entendem que foi um ou outro factor que a causou, mas nunca referem a verdadeira causa que é o próprio sistema.Observamos também à continuação da apresentação dos diagnósticos e das soluções para a “maldita” crise. Incrédulos ouvimos os adeptos do “menos estado, melhor estado” a solicitar a intervenção cada vez maior do tal estado que eles queriam mais pequeno. Também ouvimos várias vezes expressões e palavras que esses mesmos senhores (ditos por eles próprios modernos) consideravam ultrapassadas e bafientas. Palavras e expressões como nacionalizações, intervenção do estado, estado social, entre outras consideradas demasiadas antigas para um mundo que avança no sentido global.E se isto se passa no nosso planeta azul, em Portugal também constatamos que os nossos representantes voltaram a usar a mesma terminologia antiga e gasta. O Presidente da República converteu-se e agora defende o que não defendia enquanto 1º Ministro, a Constituição da República Portuguesa, ainda que só em parte como se viu no caso do Estatuto dos Açores. Esperemos que este espírito alastre e que passe também a defender a nossa lei fundamental nas questões laborais! O 1º Ministro depois de traçar um rumo para o país durante três anos, inverte agora o discurso apesar de não inverter as políticas. Afirma-se defensor do Estado Social e do emprego, ao mesmo tempo que tenta construir um Código do Trabalho injusto e tendencioso, contra os trabalhadores e depois de ter atacado as funções sociais do Estado. Na prática, assistimos a uma reconversão nas palavras de alguns ao mesmo tempo que vão fazendo o mesmo de sempre: atacar o estado e os direitos dos cidadãos, em todas as suas vertentes. Em 2009, as perspectivas agora enunciadas por estes senhores são muito más. Apresentam mais desemprego, mais dificuldades, mais insegurança, mais injustiça, mas nem por isso alteram o seu comportamento ou as suas políticas. Em 2009, o caminho para esses decisores é o mesmo que conduziu a esta crise: desmembramento do aparelho produtivo, desmembramento das funções sociais do estado, redução dos direitos dos portugueses em todos os campos e aumento da dependência portuguesa face ao exterior, colocando em risco por todas estas vias a soberania nacional e, em último caso a própria democracia portuguesa.Mas como alguém dizia, apesar de não o fazer como devia: “Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não!” Desde sempre o Partido Comunista Português tem se apresentado aos portugueses como um defensor de uma outra política, uma política que quebre com esta, e por isso tem vindo a exigir uma ruptura, em que se valorize o aparelho produtivo, que se cumpra a Constituição e isto é melhorar as funções sociais do estado, criar políticas que fomentem o emprego, que defendam os direitos de quem trabalha e que crie condições para que Portugal reduza os deficits: o produtivo, energético, cultural, educacional e como não poderia deixar de ser o democrático, porque resolvendo estes facilmente se resolve o financeiro.É neste quadro que nos apresentamos aos portugueses e é neste quadro que os portugueses vão ser chamados a votar em três actos eleitorais, todos eles com uma extraordinária importância, mas que por si só não substituem o papel de cada um de nós no dia a dia. Em 2009 poderemos criar condições para uma ruptura com estas políticas, podemos e devemos lutar por ela, pela construção de uma sociedade melhor, onde cada um de nós tenha um papel, onde todos sejam válidos e onde se combata a exclusão. Está nas mãos e na consciência de cada um de nós exigir mais e melhor, porque sim, é possível uma vida melhor, basta lutar por isso e exigir um outro rumo, uma nova política.




Nuno Cavaco, Membro da DORS do PCP.



Artigo aqui.

15 de janeiro de 2009

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XIX. Por Noam Chomsky.

A guerra contra (certas) drogas.


Um dos substitutos do extinto Império do Mal (União Soviética e Bloco de Leste) tem sido a ameaça representada pelos traficantes de drogas da América Latina. No início de Setembro de 1989, uma enorme campanha governo – comunicação social foi lançada pelo presidente dos EUA. Naquele mês, os telegramas da AP transmitiram mais histórias sobre drogas do que sobre a América Latina, a Ásia, o Médio Oriente e a África juntos. Se alguém assistisse à televisão, perceberia que em todos os programas de notícias havia uma grande parte mostrando como as drogas estavam a destruir a nossa sociedade e tornando-se uma grande ameaça à nossa existência, etc. O efeito na opinião pública foi imediato. Quando Bush ganhou a eleição presidencial, em 1988, o povo dizia que o déficit do orçamento era o maior problema enfrentado pelo país. Apenas 3% apontou as drogas. Depois do bombardeio pela comunicação social, as preocupações com o orçamento diminuíram, ao mesmo tempo que aumentaram em relação às drogas, em torno de 40% a 45%, o que é muito raro para uma pergunta aberta (onde não são sugeridas respostas específicas). Actualmente, quando algum país aliado reclama que os EUA não estão a enviar suficiente ajuda financeira, já não diz “necessitamos dela para conter os russos”, e sim, “necessitamos dela para reprimir o tráfico de drogas”. Assim como a ameaça soviética, tais inimigos fornecem uma boa desculpa para a presença militar americana onde haja actividade rebelde ou outros distúrbios. Assim, internacionalmente, “a guerra às drogas” fornece um pretexto para intervenções.

Internamente, tem pouco a ver com as drogas, mas muito a ver com a distração da população, aumentando a repressão nos centros urbanos e apoiando o ataque às liberdades civis. Não se trata de dizer que o “abuso de substâncias químicas”’ não seja um problema sério. Na época em que foi lançada a guerra contra as drogas, as mortes por tabaco foram estimadas em cerca de trezentas mil ao ano, e talvez outras cem mil por álcool. Entretanto, essas não eram as drogas que o governo Bush perseguia. Seu alvo foram as drogas ilegais, que haviam causado muito menos mortes – acima de 3.500 ao ano –, de acordo com as estimativas oficiais. Um dos motivos dessa perseguição às drogas era porque o consumo destas esteve diminuindo por alguns anos. Assim, o governo Bush poderia prever seguramente que sua guerra às drogas seria bem sucedida na diminuição do consumo de drogas. O governo Bush perseguiu também a marijuana, que não havia causado nenhuma morte conhecida entre os seus sessenta milhões de utilizadores diários. Na verdade, o ataque exacerbou o problema das drogas, já que muitos utilizadores da marijuana passaram desta droga, praticamente inofensiva, para outras mais perigosas como a cocaína, que é mais fácil de ocultar. Assim que a guerra contra as drogas foi lançada com grande estardalhaço, em setembro de 1989, o Conselho de Representantes do Comércio dos EUA (USTR) conseguiu uma audiência em Washington a fim de discutir a proposta das indústrias de tabaco de impor sanções à Tailândia, em retaliação aos esforços desse país em restringir a propaganda e as importações de tabaco americano. Tais acções do governo americano já tinham forçado ao vício, desse narcótico letal, as gargantas de consumidores no Japão, na Coréia do Sul e em Taiwan, com todo tipo de custos humanos já mencionados. O chefe da Saúde Pública dos Estados Unidos, Everett Koop, declarou perante o conselho do USTR que “quando imploramos aos governos estrangeiros para acabarem com o fluxo de cocaína, é o cúmulo da hipocrisia os EUA exportarem tabaco”. E acrescentou, “daqui a alguns anos, o nosso país vai olhar para trás e achar escandalosa a aplicação dessa política de livre comércio”.
Testemunhas tailandesas também protestaram, prevendo que as consequências das sanções americanas reverteriam a diminuição do uso do cigarro, obtida pela campanha do governo contra o tabaco. Em resposta à alegação das companhias americanas que o seu tabaco era o melhor do mundo, uma testemunha tailandesa respondeu que “certamente nós também temos, no Triângulo do Ouro, alguns dos melhores produtos do mundo, mas nunca solicitamos que o princípio de livre comércio imperasse sobre tais produtos. Na verdade, nós os reprimimos”. Os críticos recordaram a Guerra do Ópio ocorrida há 150 anos, quando o governo britânico forçou a China a abrir suas portas ao ópio da Índia britânica, defendendo hipocritamente as virtudes do livre comércio, enquanto impunham forçosamente o vício da droga, em larga escala, na China. Aqui temos o maior caso de drogas da actualidade. Imagine a estridente manchete: “Governo dos Estados Unidos é líder mundial em venda de drogas”. Isso certamente venderia jornais. Entretanto, a história passou virtualmente despercebida aqui, sem o menor indício das óbvias conclusões. Outro aspecto do problema das drogas que também recebeu pouca atenção foi o importante papel que os EUA desempenharam no estímulo ao tráfico de drogas, desde a Segunda Guerra Mundial. Isso aconteceu, em parte, quando os EUA começaram a tarefa pós-guerra de minar a resistência anti-fascista, tornando o movimento sindical um importante alvo. Em França, a ameaça de poder político e a influência do movimento sindical aumentaram quando foram tomadas medidas para impedir o fluxo de armas às forças francesas, que buscavam reconquistar a sua antiga colónia do Vietname, com o apoio dos EUA. A CIA, então, decidiu enfraquecer e dividir o movimento trabalhista francês, com a ajuda dos principais líderes sindicais norte-americanos, que ficaram muito orgulhosos do seu papel. A tarefa exigia fura-greves e provocadores. Havia uma óbvia fornecedora: a Máfia. Naturalmente, a Máfia não aceitou o serviço apenas por diversão. Ela queria uma recompensa pelos seus esforços. E essa foi-lhe dada: a Máfia foi autorizada a restabelecer o comércio de heroína, que havia sido suprimido pelos governos fascistas – a famosa “conexão francesa” – que dominou o comércio de drogas até os anos 1960. Nesse período, o centro de comércio de drogas havia sido transferido para a Indochina, especialmente para o Laos e para a Tailândia. A transferência foi novamente um subproduto da operação da CIA – a “guerra secreta” travada naqueles países, durante a Guerra do Vietname, por um exército mercenário da CIA. Os participantes também queriam um pagamento poelas suas contribuições. Mais tarde, a CIA transferiu as suas atividades para o Paquistão e para o Afeganistão, onde o comércio de tráfico de drogas floresceu. A guerra clandestina contra a Nicarágua também deu uma injecção de energia nos braços dos traficantes de drogas da região, assim que os vôos ilegais da CIA, com armas para as forças mercenárias americanas, ofereceram uma forma tranquila de transportar drogas de volta para os EUA, algumas vezes por intermédio até de bases da Força Aérea dos Estados Unidos, como informam os traficantes. A estreita correlação entre o comércio de drogas e o terrorismo internacional(algumas vezes chamada de “contra-insurgência”, “conflito de baixa intensidade” ou algum outro eufemismo) não é nenhuma surpresa. As operações clandestinas necessitam de muito dinheiro, que deve ser lavado. E elas (as operações) precisam de criminosos eficientes. E por aí vai.

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XVIII. Por Noam Chomsky.

Como funcionava a Guerra Fria.

Apesar de muita pretensão, a segurança nacional foi a principal preocupação dos estrategas americanos e das autoridades eleitas. Os dados históricos revelam isso claramente. Poucos analistas sérios questionaram a posição de George Kennan de que "não é a força militar russa que nos está a ameaçar, e sim a força política russa" (outubro de 1947); ou a opinião consistente do presidente Eisenhower de que os russos não pretendiam a conquista militar da Europa Ocidental e que o papel mais importante da NATO era "transmitir confiança às populações desprotegidas, confiança essa que as tornariam politicamente inflexíveis em oposição às infiltrações comunistas”. Mesmo assim, os EUA descartaram a possibilidade de uma solução pacífica para o conflito da Guerra Fria, que teria deixado a "ameaça política" intacta. Na sua história sobre as armas nucleares, McGeorge Bundy escreve que ele não estava "ciente de nenhuma proposta contemporânea séria... que os mísseis balísticos seriam de alguma forma proibidos, por um acordo, antes de eles já estarem instalados", muito embora eles fossem a única ameaça militar concreta aos Estados Unidos. Sempre foi a ameaça “política” do chamado
comunismo a principal preocupação. Lembre-se “comunismo” é um termo amplo e inclui todos aqueles com “habilidade de controlar os movimentos de massa... coisa que não temos a capacidade de realizar”, como o secretário de Estado John Foster Dules admitiu secretamente ao seu irmão Allen, diretor da CIA. “Os pobres são os que eles mais atraem, ele acrescentou, “e estes sempre quiseram saquear os ricos”. Então, eles devem ser vencidos para proteger a nossa doutrina de que os ricos devem saquear os pobres.

Naturalmente, tanto os EUA quanto a Rússia preferiam que o outro lado desaparecesse, mas visto que isso implicaria obviamente uma eliminação mútua, então um sistema de gestão global,
chamado Guerra Fria, foi estabelecido. De acordo com a opinião convencional, a Guerra Fria foi um conflito entre duas super-potências, causado pela agressão soviética, na qual tentávamos conter a União Soviética e proteger o mundo dela. Se esse ponto de vista é uma doutrina teológica, não há necessidade de discuti-la. Entretanto, se se pretende lançar alguma luz sobre essa história, poderíamos facilmente testá-la, tendo em mente um ponto muito simples: se quisermos entender a Guerra Fria, devemos observar os acontecimentos da Guerra Fria. Se assim fizermos, um quadro bens diferente surgirá. No lado soviético, os acontecimentos da Guerra Fria foram repetidas intervenções na Europa Oriental: tanques em Berlim Oriental, Budapeste e Praga. Essas intervenções foram realizadas ao longo da mesma rota que serviu para atacar, e praticamente destruir, a Rússia por três vezes, só neste século. A invasão do Afeganistão é o único exemplo de uma intervenção fora de rota, embora também na fronteira soviética. No lado americano, as intervenções eram no mundo inteiro, reflectindo o status alcançado pelos EUA, como a primeira potência verdadeiramente global da história.
Internamente, a Guerra Fria ajudou a União Soviética a entrincheirar no poder uma classe dirigente militar-burocrática e deu aos Estados Unidos um motivo para obrigar a sua população a subvencionar a indústria de alta tecnologia. Não é fácil vender tudo isso às populações internas. A técnica utilizada era o antigo álibi – medo ao grande inimigo. A Guerra Fria previa isso também. Não importava o quão bizarra fosse a ideia de que a União Soviética, com os seus tentáculos, estava a estrangular o Ocidente, o “Império do Mal” era de facto mal, era um império e era brutal. Cada superpotência controlava o seu inimigo principal – a sua própria população – aterrorizando-a com os crimes (absolutamente reais) do outro. Numa avaliação crítica, portanto, a Guerra Fria foi uma espécie de acordo tácito entre a União Soviética e os Estados Unidos, sob o qual os EUA conduziram as suas guerras contra o Terceiro Mundo e controlaram os seus aliados na Europa, enquanto os governantes soviéticos mantiveram com garras de aço o seu próprio império interno e os seus satélites na Europa Oriental – cada lado utilizando o outro para justificar a repressão e a violência no seu própria domínio.

Então, por que é que a Guerra Fria terminou e como o seu fim alterou as coisas? Na década de 1970, os gastos militares soviéticos estavam a extrapolar os limites, e os problemas internos estavam a aumentar com a estagnação económica e as crescentes pressões pelo fim do regime tirânico. A potência soviética estava, de facto, declinando internacionalmente há uns trinta anos, como um estudo do Centro de Informação de Defesa mostrou, em 1980. Poucos anos depois, o sistema soviético desmoronaria. A Guerra Fria terminou com a vitória daquele que sempre tinha sido, de longe, o mais rico e mais poderoso concorrente. 0 colapso soviético fez parte de uma catástrofe económica geral nos anos 1980, que foi mais dura na maior parte dos domínios do Ocidente no Terceiro Mundo do que no Império Soviético. Como já vimos, a Guerra Fria teve elementos importantes no conflito Norte – Sul (para usar o eufemismo contemporâneo em relação à conquista europeia do mundo). A maior parte do Império Soviético tinha sido constituída por antigas dependências, quase coloniais, do Ocidente. A União Soviética tomou um caminho independente, fornecendo assistência para os alvos de ataque do Ocidente e evitando uma violência ocidental ainda pior. Com o colapso da tirania soviética, e de se esperar que grande parte da região retorne ao seu tradicional status, com os mais altos escalões da antiga burocracia desempenhando o papel das elites do Terceiro Mundo que se enriquecem servindo os interesses dos investidores estrangeiros. Entretanto, se esta fase singular terminou, os conflitos Norte – Sul continuam. Um dos lados pode ter-se retirado parcialmente do jogo, mas os EUA procedem como antes – na realidade mais livremente – com o obstáculo soviético sendo uma coisa do passado. Não deve ter surpreendido ninguém que George Bush comemorasse o fim simbólico da Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim, invadindo imediatamente o Panamá e anunciando aos quatro ventos que os EUA subverteriam a eleição na Nicarágua, mantendo o estrangulamento económico e o ataque militar, a menos que o “nosso lado” ganhasse. Nem foi necessário grande raciocínio para Elliot Abrams observar que a invasão do Panamá pelos Estados Unidos era incomum, porque pôde ser conduzida sem o receio de uma reacção soviética em qualquer parte do mundo, ou para os inúmeros comentaristas, durante a crise do Golfo, acrescentarem que agora os EUA e a Inglaterra estavam livres para usar uma força ilimitada contra
os seus inimigos do Terceiro Mundo, já que não estavam inibidos pelo obstáculo soviético. Logicamente, o fim da Guerra Fria traz também problemas. Notoriamente, a técnica de controlo da população interna sofreu uma alteração, um problema, como já vimos, identificado nos anos 1980. Novos inimigos têm de ser inventados. Torna-se cada vez mais difícil esconder que “os pobres que procuram despojar os ricos” têm sido sempre o verdadeiro inimigo – em particular os "hereges" do Terceiro Mundo, que buscam escapar do papel de súbditos.

Direitos e deveres fundamentais da Constituição.

"Artigo 12.º Princípio da universalidade.
1. Todos os cidadãos gozam dos direitos e estão sujeitos aos deveres consignados na Constituição.
2. As pessoas colectivas gozam dos direitos e estão sujeitas aos deveres compatíveis com a sua natureza."
Só quero sublinhar bem o Todos do nº1. Todos, é toda a gente!

Princípios fundamentais da Constituição.

"Artigo 11.º Símbolos nacionais e língua oficial.
1. A Bandeira Nacional, símbolo da soberania da República, da independência, unidade e integridade de Portugal, é a adoptada pela República instaurada pela Revolução de 5 de Outubro de 1910.
2. O Hino Nacional é A Portuguesa.
3. A língua oficial é o Português."
Este artigo encontra-se estampado nesta casa...

8 de janeiro de 2009

Grito e choro por Gaza e por Israel. Por Fernando Nobre.

Há momentos em que a nossa consciência nos impede, perante acontecimentos trágicos, de ficarmos silenciosos porque ao não reagirmos estamos a ser cúmplices dos mesmos por concordância, omissão ou cobardia. O que está a acontecer entre Gaza e Israel é um desses momentos. É intolerável, é inaceitável e é execrável a chacina que o governo de Israel e as suas poderosíssimas forças armadas estão a executar em Gaza a pretexto do lançamento de roquetes por parte dos resistentes (“terroristas”) do movimento Hamas. Importa neste preciso momento refrescar algumas mentes ignorantes ou, muito pior, cínicas e destorcidas: - Os jovens palestinianos, que são semitas ao mesmo título que os judeus esfaraditas (e não os askenazes que descendem dos kazares, povo do Cáucaso), que desesperados e humilhados actuam e reagem hoje em Gaza são os netos daqueles que fugiram espavoridos, do que é hoje Israel, quando o então movimento “terrorista” Irgoun, liderado pelo seu chefe Menahem Beguin, futuro primeiro-ministro e prémio Nobel da Paz, chacinou à arma branca durante uma noite inteira todos os habitantes da aldeia palestiniana de Deir Hiassin: cerca de trezentas pessoas. Esse acto de verdadeiro terror, praticado fria e conscientemente, não pode ser apagado dos Arquivos Históricos da Humanidade (da mesma maneira que não podem ser apagados dos mesmos Arquivos os actos genocidários perpetrados pelos nazis no Gueto de Varsóvia e nos campos de extermínio), horrorizou o próprio Ben Gourion mas foi o acto hediondo que provocou a fuga em massa de dezenas e dezenas de milhares de palestinianos para Gaza e a Cisjordânia possibilitando, entre outros factores, a constituição do Estado de Israel...


- Alguns, ou muitos, desses massacrados de hoje descendem de judeus e cristãos que se islamisaram há séculos durante a ocupação milenar islâmica da Palestina. Não foram eles os responsáveis pelos massacres históricos e repetitivos dos judeus na Europa, que conheceram o seu apogeu com os nazis: fomos nós os europeus que o fizemos ou permitimos, por concordância, omissão ou cobardia! Mas são eles que há 60 anos pagam os nossos erros e nós, a concordante, omissa e cobarde Europa e os seus fracos dirigentes assobiam para o ar e fingem que não têm nada a ver com essa tragédia, desenvolvendo até à náusea os mesmos discursos de sempre, de culpabilização exclusiva dos palestinianos e do Hamas “terrorista” que foi eleito democraticamente mas de imediato ostracizado por essa Europa sem princípios e anacéfala, porque sem memória, que tinha exigido as eleições democrática para depois as rejeitar por os resultados não lhe convirem. Mas que democracia é essa, defendida e apregoada por nós europeus? - Foi o governo de Israel que, ao mergulhar no desespero e no ódio milhões de palestinianos (privados de água, luz, alimentos, trabalho, segurança, dignidade e esperança ), os pôs do lado do Hamas, movimento que ele incentivou, para não dizer criou, com o intuito de enfraquecer na altura o movimento FATAH de Yasser Arafat. Como inúmeras vezes na História, o feitiço virou-se contra o feiticeiro, como também aconteceu recentemente no Afeganistão. - Estamos a assistir a um combate de David (os palestinianos com os seus roquetes, armas ligeiras e fundas com pedras...) contra Golias (os israelitas com os seus mísseis teleguiados, aviões, tanques e se necessário...a arma atómica!).


- Estranha guerra esta em que o “agressor”, os palestinianos, têm 100 vezes mais baixas em mortos e feridos do que os “agredidos”. Nunca antes visto nos anais militares! - Hoje Gaza, com metade a um terço da superfície do Algarve e um milhão e meio de habitantes, é uma enorme prisão. Honra seja feita aos “heróis” que bombardeiam com meios ultra-sofisticados uma prisão praticamente desarmada (onde estão os aviões e tanques palestinianos?) e sem fuga possível, à semelhança do que faziam os nazis com os judeus fechados no Gueto de Varsóvia! - Como pode um povo que tanto sofreu, o judeu do qual temos todos pelo menos uma gota de sangue (eu tenho um antepassado Jeremias!), estar a fazer o mesmo a um outro povo semita seu irmão? O governo israelita, por conveniências políticas diversas (eleições em breve...), é hoje de facto o governo mais anti-semita à superfície da terra! - Onde andam o Sr. Blair, o fantasma do Quarteto Mudo, o Comissário das Nações Unidas para o Diálogo Inter-religioso e os Prémios Nobel da Paz, nomeadamente Elie Wiesel e Shimon Perez? Gostaria de os ouvir! Ergam as vozes por favor! Porque ou é agora ou nunca! - Honra aos milhares de israelitas que se manifestam na rua em Israel para que se ponha um fim ao massacre. Não estão só a dignificar o seu povo, mas estão a permitir que se mantenha uma janela aberta para o diálogo, imprescindível de retomar como único caminho capaz de construir o entendimento e levar à Paz! - Honra aos milhares de jovens israelitas que preferem ir para as prisões do que servir num exército de ocupação e opressão. São eles, como os referidos no ponto anterior, que notabilizam a sabedoria e o humanismo do povo judeu e demonstram mais uma vez a coragem dos judeus zelotas de Massada e os resistentes judeus do Gueto de Varsóvia! Vergonha para todos aqueles que, entre nós, se calam por cobardia ou por omissão. Acuso-os de não assistência a um povo em perigo! Não tenham medo: os espíritos livres são eternos! É chegado o tempo dos Seres Humanos de Boa Vontade de Israel e da Palestina fazerem calar os seus falcões, se sentarem à mesa e, com equidade, encontrarem uma solução. Ela existe! Mais tarde ou mais cedo terá que ser implementada ou vamos todos direito ao Caos: já estivemos bem mais longe do período das Trevas e do Apocalipse. É chegado o tempo de dizer BASTA! Este é o meu grito por Gaza e por Israel (conheço ambos): quero, exijo vê-los viver como irmãos que são.




Fernando Nobre (Fundador e Presidente da A.M.I.), no seu blog "Contra a Indiferença".

Guerra em Gaza, a hipocrisia sangrenta. Por José Goulão.

Altos responsáveis de países que se consideram faróis da «civilização» multiplicam apelos à «contenção» e ao «cessar-fogo» em Gaza, como quem procura assim cumprir uma obrigação perante o «agravamento da crise» no Médio Oriente. A hipocrisia de presidentes, ministros, diplomatas ou porta-vozes é tão óbvia como de costume, mas ainda consegue ser mais chocante tendo em consideração a tragédia que vitima mais de um milhão de meio de pessoas amontoadas num pequeno território inóspito aferrolhado entre Israel, o Egipto e o Mediterrâneo. Tais apelos baseiam-se na objectividade de um pretenso distanciamento entre as «partes em conflito», assim se exigindo uma rigorosa simetria de comportamentos como numa guerra convencional entre exércitos clássicos. Simetria, pois, entre civis indefesos e as forças armadas que ocupam o quarto lugar no ranking das mais poderosas do mundo; entre ocupados e ocupantes; entre morteiros mais ou menos artesanais e o poder de fogo dos F-16 e dos tanques de última geração; entre comunidades famintas sujeitas há anos a um feroz bloqueio de bens essenciais e uma nação estruturada apoiada sem limites pelo mais poderoso país do planeta; entre as vítimas e respectivos descendentes de uma limpeza étnica e os seus autores. O Hamas quebrou a trégua e tem de pagar, devendo desde já sujeitar-se ao regresso ao cessar-fogo faça o inimigo o que fizer, sentenciam os diplomatas civilizados. Trégua que verdadeiramente nunca existiu, uma vez que foi desde logo desrespeitada pelo Estado de Israel ao violar um dos seus pressupostos essenciais: o fim do bloqueio humanitário a Gaza. Durante os últimos seis meses o cerco não apenas se manteve como se apertou. Como movimento terrorista, o Hamas tem que pagar, dirão ainda e sempre os civilizados senhores do poder de distinguir os que são e os que não são terroristas, do mesmo modo que lançam guerras contra possuidores de armas de extermínio que nunca existiram.



O Hamas, porém, praticamente não era nada quando se iniciou a primeira Intifada palestiniana, em fins de 1988. Hoje, o papel dos serviços secretos de Israel na criação efectiva de um movimento islâmico, o Hamas, para dividir a resistência nacional palestiniana dirigida pela Organização de Libertação da Palestina (OLP) já nem é sequer um segredo de Polichinelo. Os interessados em aprofundar o assunto poderão começar por pesquisar através da obra de Robert Dreyfuss e começar a desenrolar o novelo. Descobrirão elementos muito interessantes e com flagrante actualidade. A verdade é que de grupinho divisionista e terrorista o Hamas se transformou num movimento que, tirando dividendos dos fracassos sucessivos do chamado processo de paz, boicotado por Israel e Estados Unidos e assumido pela Fatah como única opção estratégica, conseguiu ganhar as eleições parlamentares palestinianas em 2006. O Hamas cresceu com as estratégias militaristas em redor, como os talibãs no Afeganistão (agora controlando zonas a menos de 50 quilómetros de Cabul) ou o Hezbollah no Líbano, fruto das invasões israelitas da década de oitenta. Reconhecer que o Hamas é agora uma realidade evidente no problema israelo-palestiniana não significa fraqueza, simpatia ou conivência com o terrorismo. É, prosaicamente, uma simples questão de senso comum.



As eleições de 2006, proclamaram os observadores internacionais, muitos deles oriundos das terras «civilizadas», foram livres e justas. Logo, ao Hamas coube formar governo – diz-se que é assim que funciona a democracia. Engano puro. A chamada «comunidade internacional» decidiu não reconhecer o governo escolhido pela maioria dos palestinianos; nem sequer aceitou uma aliança entre o Hamas e a Fatah, que praticamente fazia o pleno da vontade dos eleitores. Pelo contrário, também não são segredo as diligências da administração de George W. Bush e do governo israelita de Ehud Olmert para lançar a guerra civil entre as duas principais organizações palestinianas – chegando, para isso, a fornecer armas à Fatah – fazendo simultaneamente por ignorar o acordo entretanto estabelecido pelos dois movimentos sob mediação do Egipto e da Arábia Saudita. Este processo conduziu à divisão palestiniana: a Fatah na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, dependente do que Israel lhe permite ou não fazer; e o Hamas controlando Gaza, território dos seus principais feudos. Daí ao bloqueio a Gaza e, agora, à invasão, foi um pequeno salto. O massacre está em curso, assistindo-se na comunicação social a tão curiosos como ridículos esforços para distinguir entre vítimas civis e militares. Em Gaza, para que conste, não há militares, a não ser os invasores. Existem restos da polícia autonómica, militantes do Hamas armados e organizados como milícias. O resto é milhão e meio de desempregados, famintos e humilhados. Tal é o inimigo de Israel que lançou alguns morteiros, por exemplo contra a cidade de Asqelon, que em 1948 se chamava Al-Majdal e era uma aldeia árabe cuja população, vítima da limpeza étnica em que assentou a criação do Estado de Israel, se refugiou em Gaza. Os dirigentes de Israel asseguram que os «civis» serão poupados durante a invasão. Tal como aconteceu em 1982 em Beirute, onde os militares comandados por Ariel Sharon, fundador do partido de Ehud Olmert e Tzipi Livni, destruíram o sector ocidental da cidade, acabando por patrocinar os massacres de Sabra e Chatila. Ou em 1996, quando Shimon Peres, actual presidente israelita, foi responsável pelo massacre de Canan, também no Líbano, e mesmo assim perdeu as eleições parlamentares. Gaza, ainda assim, será diferente de Sabra e Chatila. Agora, os soldados israelitas sujam mesmo as mãos com o sangue das populações indefesas – salpicando inevitavelmente os hipócritas que os defendem.


Por José Goulão (Jornalista). Segunda-feira 5 de Janeiro de 2009


Retirado aqui.

Rui Rangel (não confundir com o irmão Emídeo...) com uma lucidez bonita de se ver.

"No nosso sistema político, compete, por excelência, ao Parlamento, a tarefa de legislar sobre todos os sectores da vida em sociedade. Nesta função é obrigação dos deputados, não só produzirem boas leis, mas, sobretudo, terem a preocupação de fazer aprovar leis que respeitem e estejam conformes ao texto constitucional. Os deputados não podem aprovar leis que são inconstitucionais. Entre nós, porém, a situação é diferente. Também no processo legislativo temos a marca genética da nossa originalidade. Na casa das leis, o respeito pela Constituição deveria ser uma normal prioridade. Creio que os deputados não cumprem bem a sua missão constitucional, quando põem à frente dos princípios constitucionais, os interesses partidários e das suas clientelas. Até porque juraram cumprir e fazer cumprir a Constituição e não os interesses de grupo. E o mais grave disto tudo é que têm consciência desta triste realidade.

Se o cidadão normal conhecesse os corredores do Parlamento e a forma como as leis são discutidas e aprovadas pelos grupos partidários aí com assento, nas várias comissões legislativas, dava-lhe com certeza uma apoplexia. Em regra, o processo de criação de leis é desorganizado e realizado de forma caótica, muitas vezes por pessoas que não fazem a mais pálida ideia do que está ser discutido. Daí a quantidade de leis aprovadas pelo Parlamento, depois declaradas inconstitucionais. Hoje é a regra mesmo em leis estruturantes.
E não se diga que isto acontece devido às diferentes formas de interpretar a Constituição. Não, isto sucede porque a Constituição, que deveria ser o farol de orientação na produção de leis inferiores, as mais das vezes não constitui a primeira preocupação. Para os deputados, existir ou não a Constituição é praticamente indiferente, porque esta, em termos substantivos, é considerada letra morta. Mesmo sendo inconstitucional, aprova-se a lei e depois o Tribunal Constitucional que diga de sua justiça. Esta técnica ‘conspirativa’ não é uma boa regra.

Na degradação da legislação, o jogo que jogam os deputados é o da sobrevivência política. Pois bem, tenho para mim que as inconstitucionalidades deveriam ser sempre expurgadas pelo Parlamento, por certo com menos e melhores deputados. Ou, então, por um outro órgão intermédio, que, de forma científica e com sistematização, fizesse este trabalho prévio. O Parlamento saía mais prestigiado e os custos financeiros para o País eram menores."


Rui Rangel (Juíz Desembargador).

Notícia aqui.

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XVII. Por Noam Chomsky.

O mercenário do mundo.


Na maior parte deste século os Estados Unidos foram, de longe, a potência económica dominante no mundo, que fez da guerra económica uma arma atraente, incluindo as medidas que variam do embargo ilegal às imposições das regras do FMI (para os fracos e descapitalizados). Mas, nos últimos vinte anos, mais ou menos, os Estados Unidos têm estado em declínio em relação ao Japão e à Europa encabeçada pela Alemanha (graças, em parte, à má gestão do governo Reagan, que deu uma festa aos ricos com custos pagos pela maioria da população e das gerações futuras). Ao mesmo tempo, no entanto, o poder militar norte-americano tornou-se absolutamente preponderante no mundo. Enquanto a União Soviética esteve no jogo, havia um limite para a força que os Estados Unidos poderiam aplicar, particularmente nas áreas mais remotas, onde não tínhamos a vantagem de uma grande força convencional. Como a URSS costumava apoiar governos e movimentos políticos que os EUA tentavam destruir, havia o perigo de que a intervenção norte-americana no Terceiro Mundo pudesse incentivar numa guerra nuclear. Com o obstáculo soviético desfeito, os EUA estão muito mais livres para usar a violência pelo mundo fora, facto este reconhecido com muita satisfação pelos analistas políticos norte-americanos, há vários anos. Em qualquer confrontação, cada participante tenta deslocar a batalha para o terreno em que tenha maior probabilidade de sucesso. Se se quer liderar com energia, tem de se jogar forte. A jogada de peso dos Estados Unidos é a força, então, se pudermos estabelecer o princípio de que a força comanda o mundo, isso será uma vitória para nós. Se, por outro lado, um conflito for resolvido por meios pacíficos, isso beneficiar-nos-á menos, porque os nossos rivais são tão bons ou até melhores que nós nesse terreno. A diplomacia é particularmente uma opção indesejável, a menos que seja exercida sob a mira da espingarda. Os Estados Unidos têm muito pouco apoio popular para as suas metas no Terceiro Mundo. Isso não é surpresa, tendo em vista que os EUA vêm tentando impor estruturas de dominação e de exploração. Um acordo diplomático tem o dever de responder, pelo menos em certo grau, aos interesses dos outros participantes na negociação, e isso é um problema quando as suas posições não são muito populares. Em consequência, as negociações são algo que os EUA comummente tentam evitar. Ao contrário da imensa propaganda, há muitos anos que essa tem sido a verdade no Sudeste Asiático, no Médio Oriente e na América Central. Diante de tal quadro, é natural que o governo Bush considerasse a força militar como principal instrumento político, preferindo-a às sanções e à diplomacia (como na crise do Golfo). Visto que actualmente os Estados Unidos necessitam de base económica para impor "ordem e estabilidade" no Terceiro Mundo, é necessário contar com outros que financiem tais actividades - alguém é necessário, como é amplamente reconhecido, desde que seja alguém que assegure o devido respeito aos mestres. O fluxo de lucros da produção petrolífera do Golfo ajuda. Mas o Japão e a Europa continental, liderada pela Alemanha, devem pagar a sua parte assim que os Estados Unidos assumirem o seu "papel de mercenário", seguindo o conselho da imprensa de empresas internacionais.

O editor financeiro do conservador "Chicago Tribune" vem enfatizando esses temas com uma clareza singular. Nós devemos ser "mercenários bem dispostos", pagos pelos nossos rivais pelos nossos amplos serviços prestados, usando o nosso "monopólio de poder" no "mercado de segurança" para manter " o nosso controle sobre o sistema económico mundial". Deveríamos administrar um plano de protecção global, aconselha ele, vendendo "protecção" para outras potências ricas, que nos pagariam uma "recompensa de guerra". Isto é Chicago, onde as palavras são assim entendidas: se alguém o incomodar, você pode chamar a Máfia para lhe partir os ossos. Mas se você se atrasar na recompensa, a sua saúde também pode sofrer danos. Para ser exacto, o uso da força para controlar o Terceiro Mundo é somente o último recurso. O FMI é um instrumento mais barato do que os Marines e a CIA. Mas o "punho-de-ferro" deve estar nos bastidores, disponível quando necessário. O nosso papel de mercenários também causa sofrimento interno. Todas as potências industriais bem-sucedidas sempre contaram com o Estado para protegê-las e ampliar os seus já poderosos interesses económicos internos, direccionando os recursos públicos para as necessidades dos investidores, e assim por diante - este é um motivo pelo qual eles são bem-sucedidos. Desde 1950, os EUA têm, em geral, seguido essas metas por intermédio do sistema do Pentágono (inclusive a NASA e o Departamento de Energia, que produzem armas nucleares). Actualmente, estamos atados a esses instrumentos para manter as indústrias electrónicas, a indústria de computadores e a indústria de tecnologia de ponta, em geral. Os excessos keynesianos dos militares fiéis aReagan aumentaram ainda mais os problemas. A transferência de recursos para a minoria rica e outras políticas governamentais levaram a uma vasta onda de manipulação financeira e a um frenesim de consumo. Contudo, houve pouco investimento na área produtiva e o país ficou sobrecarregado com enormes dívidas: governamentais, empresariais, de manutenção interna e a incalculável dívida social, cujas necessidades levam a sociedade a aproximar-se do padrão do Terceiro Mundo, com ilhas de grande riqueza e privilégio num mar de miséria e sofrimento. Quando o Estado está comprometido com tais políticas, deve de alguma forma buscar uma maneira de distrair a população, para impedi-la de ver o que está a acontecer ao seu redor. Não há muitas maneiras de fazer isso. As mais comuns são inspirar medo a inimigos terríveis que estão prestes a subjugar-nos e reverenciar os nossos grandes líderes, que nos salvam a tempo do desastre.

Esse foi o exemplo seguido ao longo dos anos 1980, exigindo não pouca ingenuidade assimilá-lo, assim que o esquema padrão, a ameaça soviética, se tornou difícil de ser levado a sério. Assim, a ameaça à nossa existência tem sido Kadafi e o seu bando de terroristas internacionais; Granada a e sua ameaçadora base aérea; sandinistas marchando para o Texas; narco-traficantes espanhóis liderados pelo arquimaníaco Noriega; e árabes malucos, em geral. Mais recentemente foi Sadam Hussein, depois de praticar um único crime - o crime de desobediência - em agosto de 1990. Tornou-se mais que necessário reconhecer o que sempre foi evidente: o principal inimigo é o Terceiro Mundo, que ameaça sair "fora do controlo". Essas não são as leis da natureza. Os processos e as instituições que as engendram podem ser mudados. Mas isso exigiria profundas mudanças culturais, sociais e institucionais que não aconteceriam a curto prazo, inclusive mudanças nas estruturas democráticas, que vão além da selecção periódica de representantes do mundo empresarial para dirigir os negócios nacionais e internacionais.

Os principais objectivos da política externa dos Estados Unidos da América XVI. Por Noam Chomsky.

As perspectivas para a Europa Oriental.


O que foi notável nos acontecimentos do Leste Europeu, nos anos 1980, foi que a potência imperial simplesmente voltou atrás. A União Soviética não só permitiu como encorajou os movimentos populares. Há poucos precedentes históricos iguais a estes. Isso não aconteceu porque os soviéticos eram bons da fita. Eles foram obrigados por necessidades internas. Mas aconteceu e, como resultado, os movimentos populares no Leste Europeu não tiveram de enfrentar, nem remotamente, o que eles enfrentariam se ocorressem na nossa área. O jornal dos jesuítas salvadorenhos concluiu acertadamente que, no seu país, Vaclav Havel (o antigo prisioneiro que se tornou presidente da Tchecoslováquia) não teria sido levado para a cadeia, mas cortado em pedaços e deixado em qualquer lugar à beira da estrada. A União Soviética até pediu desculpas pelo uso da violência no passado e este também é um facto sem precedentes. Entretanto, os jornais norte-americanos concluíram que, devido aos russos terem admitido que a invasão do Afeganistão foi um crime que violou a Lei Internacional, eles agora estavam finalmente a unir-se ao mundo civilizado. Essa é uma reacção interessante. Imagine alguém da comunicação social norte-americana sugerir que talvez os EUA devessem tentar elevar-se ao nível do Kremlin, admitindo que os ataques contra o Vietname, o Laos, o Camboja e o Iraque também violaram a Lei Internacional! O único país onde houve extrema violência, entre as tiranias derrubadas na Europa Oriental, foi justamente aquele em que os soviéticos tinham menor e os americanos maior influência: a Roménia. Nicolau Ceausescu, o ditador da Roménia, tinha visitado a Inglaterra, onde lhe foi dado tratamento real, e os Estados Unidos renderam-lhe tratamento de representante de nação favorecida, com vantagens comerciais e outras coisas semelhantes. Ceausescu era tão louco e brutal antes quanto depois, mas como se havia visivelmente retirado do Pacto de Varsóvia e estava a seguir um caminho um tanto independente, achamos que ele estava só parcialmente do nosso lado na luta internacional. Nós somos a favor da independência desde que ela seja estabelecida no império de outros povos, nunca no nosso império.

Nas outras partes da Europa, os levantes foram notadamente pacíficos. Houve alguma repressão, mas historicamente 1989 foi singular. Não consigo pensar em outro caso que se aproxime deste. Acho que as perspectivas para a Europa Oriental são bastante obscuras. O Ocidente tem um plano para ela: ele quer transformar grande parte dela numa nova e facilmente explorável parte do Terceiro Mundo. Sempre houve uma espécie de relacionamento colonizador entre a Europa Ocidental e a Europa Oriental. De facto, o bloqueio desse relacionamento pelos russos foi um dos motivos da Guerra Fria. Agora, esse relacionamento está a ser restabelecido e há sérios conflitos sobre quem irá ganhar a corrida ao roubo e à exploração. Será a Europa Ocidental liderada pela Alemanha (actualmente na frente), será o Japão (esperando em cima do muro para ver de onde aparecem os melhores lucros) ou serão os Estados Unidos (tentando entrar em ação)? Há muitos recursos para serem explorados e muita mão-de-obra barata para a linha de produção. Mas antes temos de impor-lhes o modelo capitalista. Nós não o aceitamos para nós mesmos - mas para o Terceiro Mundo, nós insistimos nesse modelo. Este é o sistema do FMI. Se conseguirmos que o adoptem, eles serão facilmente exploráveis e desempenharão o seu novo papel da mesma forma que o Brasil e o México. Em muitos sentidos, a Europa Oriental é mais atraente para os investidores do que a América Latina. Uma dessas razões é que a sua população é branca e de olhos azuis, logo com maior facilidade de negociar com os investidores, que vêm de sociedades profundamente racistas como a da Europa Ocidental e a dos Estados Unidos. O mais importante ainda é que a Europa Oriental tem, em geral, saúde e padrões educativos muito mais elevados que os da América Latina que, salvo certos sectores isolados de riqueza e privilégio, é uma área de desastre total. Uma das poucas excepções a esse respeito é Cuba, que se aproxima mais dos padrões ocidentais de alfabetização e saúde, embora as suas perspectivas sejam sombrias.
Uma razão para essa disparidade entre a América Latina e a Europa Oriental é o nível demasiadamente maior de terror estatal nos anos posteriores a Stalin. Um segundo motivo é a política económica. De acordo com a Inteligência Americana, a União Soviética injectou cerca de 80 bilhões de dólares na Europa Oriental, nos anos 1970. A situação foi bem diferente na América Latina. Entre 1982 e 1987, cerca de 150 bilhões de dólares foram transferidos da América Latina para o Ocidente. O "The New York Times" cita estimativas em "transações escusas" que poderiam alcançar 700 bilhões de dólares (incluindo dinheiro de drogas, lucros ilegais, etc.). Os efeitos na América Central têm sido particularmente devastadores, mas o mesmo ocorre em toda a América Latina, onde há uma pobreza generalizada, desnutrição, mortalidade infantil, destruição ambiental, terror estatal e um colapso no padrão de vida aos níveis de décadas passadas. A situação em África é ainda pior. A catástrofe do capitalismo foi particularmente grave nos anos 1980, um "implacável pesadelo" sob o domínio das potências ocidentais, isso nos exactos termos do chefe da Organização da Unidade Africana. Folhetos explicativos, fornecidos pela Organização Mundial de Saúde, estimam que 11 milhões de crianças morrem a cada ano no "mundo em desenvolvimento", "um genocídio silencioso" que poderia terminar rapidamente se os recursos fossem dirigidos para as necessidades humanas ao invés de serem dirigidos para o enriquecimento de uns poucos. Numa economia global planeada para os interesses e as necessidades económicas das corporações e para as finanças internacionais, além dos sectores que as servem, a maioria dos seres vivos tornam-se supérfluos. Eles serão colocados de lado se as estruturas institucionais de poder e de
privilégio funcionarem sem o desafio ou o controle popular.

4 de janeiro de 2009

Uma boa campanha.

Uma pessoa morta no mundo a cada 10 segundos através do vírus V.I.H/S.I.D.A. é uma estatística assustadora. Lembrem-se que não acontece só aos outros e, por favor, protejam-se!

2 de janeiro de 2009

Uma breve resposta à desinformação sionista.

Na triste sequência destas lenhas, apresento de seguida um texto de Khalid Amayreh acerca do que se está a passar na faixa de Gaza. Não é porque uma mentira é repetida até à exaustão que a mesma se torna verdade, pelo menos para mim não.



Os operacionais do hasbara (palavra hebraica que significa literalmente "explicação". O termo é utilizado pelo Estado de Israel e por grupos independentes para descrever os esforços destinados a explicar as políticas do governo de Israel e promovê-lo no mundo todo) sionista têm estado a afirmar que a actual carnificina genocida em Gaza é uma "guerra contra o Hamas" e que esta foi necessária só pelos disparos de rockets palestinianos sobre Israel. Isto é uma grande mentira, como se verá a seguir: "O Hamas disse reiteradamente que estava desejoso e pronto para cessar "todo" o disparo de projécteis a partir de Gaza desde que Israel levantasse o seu bloqueio mortífero. E Israel reiteradamente disse "Não". Israel tem estado a dizer ad nauseam que terminou a sua ocupação de Gaza. Bem, por que então Israel retem o seu controlo dos céus de Gaza, das costas de Gaza, do mar de Gaza, dos lugares de cruzamento da fronteira de Gaza (mesmo com o Egipto)? Por que Israel retem o controlo da vida de Gaza? Portanto, a questão dos disparos de "rockets" sobre Israel (trata-se de projécteis feitos artesanalmente e que fazem mais ruído do que dano) deveria ser encarada em grande medida como algo para desviar a atenção. Efectivamente, Israel deu aos palestinianos em Gaza uma de duas escolhas: morrerem de fome devido ao bloqueio ou serem exterminados pela máquina de guerra israelita. Na verdade, os chamados "rockets" não são senão um protesto desesperado por justiça, pelo levantamento do bloqueio mortífero. Gaza foi simplesmente reduzida a uma Auschwitz dos dias de hoje. A única diferença é que judeus estão agora a desempenhar o papel das SS. O Hamas cumpriu meticulosamente um cessar fogo de seis meses, apesar da persistência do bloqueio estilo nazi que se assemelha muito ao cerco do Gueto de Varsóvia em 1942-43. Contudo, em 13 de Novembro, Israel executou uma incursão dentro de Gaza, matando seis pessoas. Indo directamente ao principal, Israel matou 49 palestinianos durante o cessar fogo. Nem um único israelita foi morto nesse período. Além disso, centenas de palestinianos pereceram porque Israel não lhes permitia que tivessem acesso a cuidados médicos ou remédios. Vi muitos palestinianos morrerem na agonia porque a "luz das nações" não lhes permitia chegarem ao hospital uns poucos blocos mais adiante. Em suma, estamos a falar acerca de um estado judeu-nazi. Estou a dizer isto porque quando judeus pensam, se comportam e actuam como nazis, eles tornam-se nazis. Devemos chamar os nomes às coisas, especialmente quando acontece com os nossos coveiros. Portanto, é uma grande mentira chamar a esta guerra uma guerra contra o Hamas. Isto é uma guerra de extermínio estilo nazi contra o povo da Palestina. Se a guerra fosse contra o Hamas, como os criminosos de guerra de Tel Aviv continuam a afirmar, Israel não teria alvejado praças de mercado, farmácias, edifícios de faculdades, lares privados, mesquitas, instituições culturais, estradas, negócios, etc. Só um estado com uma mentalidade hitleriana alvejaria uma sociedade inteira e a seguir afirma que está a combater o Hamas! É simplesmente uma enorme mentira. Assim, Israel está simplesmente a executar um genocídio real ... e aliás um genocídio indiscriminado. Hoje, mesmo um eminente rabi judeu utilizou o termo "genocídio" para descrever o que Israel está a fazer em Gaza."
Texto retirado aqui.

Exemplo de implosão sem usar avião...


É claro que não é tão espectacular como a "demolição" do World Trade Center, mas é eficiente e não morreu ninguém...